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Capelania Evangélica do Rio de Janeiro

domingo, 11 de setembro de 2011

Espiritualidade na vida e no consultório faz bem à saúde


Espiritualidade na vida e no consultório faz bem à saúde.


08/01/2004
ANA PAULA DE OLIVEIRA
da Folha de S.Paulo

                                             http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u3126.shtml


A fé pode curar um paciente? Quem frequenta a igreja fica menos doente ou até vive mais? E aquele doente que vai para a cirurgia com a medalha da santa na mão tem chances de se recuperar melhor do que o paciente cético? Médicos de diferentes áreas em todo o mundo --independentemente de credo-- buscam comprovação científica para a relação entre espiritualidade e saúde. Nos EUA, a maioria dos cursos de medicina possui, na grade curricular, disciplinas que discutem doença, fé, cura e espiritualidade com os futuros médicos e como abordar o assunto com seus pacientes. Por aqui, a discussão começa a despontar.

Muitos dos inumeráveis estudos científicos são realizados por importantes universidades estrangeiras e publicados em revistas especializadas em medicina.

Em parte, diz o psiquiatra Harold Koenig, diretor do Centro para Estudos da Religião, Espiritualidade e Saúde da Universidade Duke (EUA), esse "reencontro entre Deus e medicina" partiu dos pacientes, que estão exigindo maior humanização no atendimento, e de constatações científicas de que a crença religiosa pode influir --para o bem ou para o mal-- na saúde do homem.

Os cientistas descobriram que a religião dá aos pacientes mais tranquilidade para expor seus problemas e serenidade para se entregarem a procedimentos cirúrgicos, diz o cardiologista Roque Marcos Savioli, um dos pioneiros no Brasil a levar Deus para o consultório, ou melhor, a introduzir o assunto durante a consulta. Ele até sugere ao paciente mais religioso que reze junto com ele durante o exame clínico. "Isso é um calmante", diz o médico, autor de "Milagres que a Medicina Não Contou" e "Depressão - Onde Está Deus?" (ed. Ágape).

Koenig, o papa dos estudos sobre espiritualidade e medicina, afirma que, entre as 24 pesquisas que já realizou em 20 anos, a que mais o surpreendeu foi a que abordou o efeito da fé sobre o sistema imunológico.

Entre 1986 e 1992, foram colhidas 4.000 amostras sanguíneas de pessoas com mais de 65 anos que frequentavam regularmente a igreja ou não tinham hábitos religiosos. O objeto de estudo foi a interleucina-6, proteína do sangue que indica o estado do sistema imunológico. O nível da proteína foi maior entre os fiéis, "o que quer dizer melhor sistema imunológico".

Para aproximar médicos da vida espiritual de seus pacientes, o American College of Physicians, maior sociedade americana de especialidades médicas, sugere aos profissionais que, durante a anamnese, sejam feitas quatro questões. São elas: se a crença do paciente traz conforto ou estresse --assim é possível saber como ele lida com a doença-- , se a religião poderia interferir no tratamento médico, se considera que sua saúde mental tem relação com a espiritualidade e se gostaria de falar a respeito de religião com o médico. Sobre este último tópico, uma pesquisa americana apontou que 77% dos pacientes gostariam que o médico falasse sobre religião, mas só 10% deles falam em Deus com seus pacientes, diz Savioli.

No entanto abordar o assunto pede cautela. "O paciente pode pensar que está morrendo e que só um milagre divino pode salvá-lo", brinca Koenig.

"Algumas crenças não dão esses benefícios que estão sendo descobertos pela ciência, pois não acreditam em um Deus pacífico, misericordioso, mas em um que pune e é severo. Se não acreditam no perdão, os fiéis se sentem culpados e ficam mais deprimidos, aumentando o nível de cortisol, reduzindo o sistema imunológico e, consequentemente, piorando o quadro clínico", diz Koenig.

E é nisso que se apóiam os críticos mais fervorosos da idéia de estreitar as relações entre medicina e religião. "Muitos pacientes atribuem a doença à punição divina e simplesmente ignoram qualquer tratamento médico, já que 'Deus quis assim'. Pelo excesso de fé, fiéis podem literalmente entregar nas mãos de Deus uma doença grave, negando qualquer tratamento médico", diz o professor de psiquiatria Richard Sloan, da Universidade de Colúmbia (EUA). Além disso, para ele, as metodologias dessas pesquisas não se sustentam, referindo-se a um dos estudos de maior repercussão: o poder da reza a distância.

Publicado na revista científica "American Heart Journal" em 2001, o estudo da Universidade Duke dividiu, em dois grupos, 120 pacientes cardíacos submetidos à angioplastia. Para um grupo de pós-operados, sem que soubessem, foram feitas orações por rabinos, pastores, padres, budistas, entre outros, durante um ano. Resultado: eles tiveram de 25% a 30% de redução dos efeitos colaterais --como morte, insuficiência cardíaca e ataque cardíaco-- em relação aos demais. Essa foi a primeira fase do estudo chamado de Mantra (Monitoring and Actualization of Noetic Trainings). A segunda etapa, com 700 pacientes, acaba de ser concluída. E, surpresa, não houve alteração entre o grupo que recebeu as preces e o outro.

Para Sloan, "isso é ciência 'junkie', é perda de tempo. É difícil estabelecer um controle sobre o grupo, pois muitas pessoas já rezam para o doente". Para o psiquiatra Fabio Herrmann, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pesquisas não fundamentadas podem provar qualquer coisa que se queira. "Mas não se pode negar o fato de que a igreja funcione como substituta da terapia. Aproxima as pessoas", diz ele, autor de "Psicanálise da Crença" (ed. Artmed).

Cruzada religiosa

O Instituto de Saúde dos Estados Unidos pretende aplicar US$ 3,5 milhões nos próximos anos em medicina do corpo e da mente, segundo reportagem de novembro da revista "Newsweek". Persistente na premissa de que os princípios da evolução e a idéia de Deus como criador são compatíveis, o magnata americano John Templeton, 92, aplica US$ 40 milhões por ano em pesquisas que tentam se aproximar de sua convicção.

"É por isso que, no Brasil, não há estudos como lá fora. Não existe investimento financeiro nesse campo de pesquisa", diz Alexander Moreira de Almeida, psiquiatra e coordenador do Neper (Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos). Para Koenig, nesse aspecto o Brasil hoje está como os Estados Unidos estavam dez anos atrás.

A passos curtos, começa-se a fomentar por aqui essa discussão nos meios médicos. No mês passado, rabino, espírita, padre, pastor, estudiosa de filosofia oriental e um ateu foram chamados para encerrar a 1ª Jornada de Religião e Prática Médica, curso de três meses realizado no Hospital das Clínicas de São Paulo.

É importante lembrar que humanização ou qualidades como espiritualidade e religiosidade não se limitam a quem segue práticas como frequentar um templo e orar. "É estreitar a relação com o paciente, começando com pequenos detalhes, como um consultório mais simpático e acolhedor", afirma o dentista Dalton Luiz de Paula Ramos, professor de bioética da USP, membro da Pontifícia Academia Pro Vita, do Vaticano, e coordenador do Núcleo Fé e Cultura, da PUC.

"A espiritualidade faz parte da formação do caráter. A cultura influencia profundamente o desenvolvimento do caráter. Se faz parte da cultura, a religião faz parte do caráter", reflete Almeida.

Em um ponto, médicos céticos ou não concordam: o paciente deve ser tratado como um ser completo. "Não é um coração que vai ao consultório, é um ser humano", diz o dentista e médico do Vaticano.

O impacto da espiritualidade na saúde física

O impacto da espiritualidade na saúde física




Considerações finais do artigo  http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf


A influência da religiosidade/espiritualidade tem demonstrado potencial impacto sobre a saúde física,
definindo-se como possível fator de prevenção ao desenvolvimento de doenças, na população previamente
sadia, e eventual redução de óbito ou impacto de diversas doenças. As evidências têm-se direcionado de forma mais robusta e consistente para o cenário de prevenção; estudos independentes, em sua maioria de grande número de voluntários e representativos da população, determinaram que a prática regular de atividades religiosas tem reduzido o risco de óbito em cerca de 30% e, após ajustes para fatores de confusão, em até 25%.
Estudos mecanísticos tentando avaliar qual a relação entre redução de mortalidade e práticas religiosas têm
enfatizado o possível incentivo que essas práticas oferecem a hábitos de vida saudável, suporte social, menores taxas de estresse e depressão. Atitudes assistenciais voluntárias ou participação em congregações têm demonstrado associação com redução de mortalidade, provendo suporte e significado de vida, emotividade de aspecto positivo ou ausência de emoções consideradas de aspecto negativo; certamente existem dúvidas sobre se esses aspectos são mais relevantes em grupos específicos, tais como no de sexo feminino, com menor suporte socioeconômico e menores níveis de educação.
Também em contraste com tais evidências, não há clara correlação entre o grau de profundidade ou envolvimento em práticas religiosas e a proteção a eventos, exceto por análises de subgrupos em curva  post hoc.
O desenvolvimento de conceituações de virtudes religiosas, perdão, altruísmo, esperança, prece e voluntarismo, apesar de soar operacional ou métrico, pode definir a nova direção para conduzir estudos de avaliação de espiritualidade e religiosidade.
Na área específica de inter venções terapêuticas propriamente dita, a prece intercessória ocupou espaço
de investigação relevante a despeito de seus dúbios resultados e controvérsias; apesar do elevado número
de publicações em revistas indexadas sobre o assunto, ainda parece pouco claro qual o método mais adequado a esse tipo de avaliação e mesmo a validade de seus resultados ou continuidade de sua investigação; por certo, não há ainda prova sólida final para sua validade ou depreciação.
Há tendência à correlação entre a religiosidade/espiritualidade e a saúde física, mas por ainda não ser
adequadamente robusto em suas provas e correlações, este constitui, sem dúvida, em amplo e promissor
campo de investigação. Nesse cenário, a necessidade de maior investigação da relação entre saúde física e
espiritualidade, baseada principalmente no impacto de intervenções de base religiosa sobre a saúde, faz-se
ainda relevante para a comprovação desse paradigma.
A comprovação definitiva de efeitos dessas intervenções poderá, em futuro próximo, permitir sua transposição à prática clínica.
A utilização de adequado método científico e emprego dos princípios da medicina baseada em evidências,
para avaliação crítica da literatura e a condução de estudos, pode certamente prover o caminho que moverá
as hipóteses do promissor ao comprovado e certamente apenas essas confirmações poderão consolidar o paradigma suficiente para a modificação da percepção e conduta da sociedade atual ante a correlação entre
espiritualidade e saúde

Prática religiosa e redução de mortalidade

Prática religiosa e redução de mortalidade
                                                                                                   O impacto da espiritualidade na saúde física

                                                                               http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf
                                                                                                        HÉLIO PENNA GUIMARÃES, ÁLVARO AVEZUM



Cerca de 11 estudos independentes e longitudinais, avaliando a relação entre a prática de atividades religiosas e o impacto sobre a mortalidade, foram descritos até 2003, dos quais apenas dois envolveram pacientes não saudáveis. Sete desses estudos obtiveram resultados ajustados para dados de demografia, aspectos socioeconômicos, sexo, fatores de risco para outras doenças e outros potenciais fatores de confusão. Em seis estudos (66,6%), verificou-se a relação estabelecida, após ajuste, de aproximadamente, em média, 30% de redução de mortalidade bruta e até 25% após ajustes para fatores de risco conhecidos. A maioria desses estudos é de base populacional (Powell et al., 2003).
Strawbridge et al. (1997), em estudo de longo seguimento, avaliaram 6.928 pacientes, entre 16 e 94 anos,
durante 28 anos de seguimento; os praticantes regulares de atividades religiosas tiveram menores taxas de
mortalidade (razão de risco de 0,64; 95% IC, 0,53-0,77).
Esses resultados foram mais robustos em mulheres; em análise ajustada para antecedentes de doenças crônicas ou fatores de risco à saúde, não houve redução significativa do impacto. Durante o seguimento, os pacientes com práticas religiosas freqüentes interromperam o tabagismo, adotaram atividade física regular, aumentaram suporte social e mantiveram seu estado matrimonial.
Hummer et al. (1999) avaliaram dados do National Health Interview Survey (NHIS) em 21.204 casos e,
entre estes, 2.216 óbitos, associando a freqüência de prática religiosa a aspectos sociodemográficos, de
saúde e comportamento. Determinaram que pessoas que nunca tiveram ou que exerceram prática religiosa
irregular apresentavam risco de óbito 1,87 vez maior comparadas àquelas com prática de pelo menos uma
vez por semana. Tal associação se traduziu em diferença de cerca de até sete anos adicionais, na expectativa de vida entre os grupos.
Jaffe et al. (2005) avaliaram pacientes aderentes a práticas religiosas ou habitando áreas consideradas afi-
liadas a práticas religiosas em Israel. Foram analisados 141.683 indivíduos com idades de 45 a 89 anos, vivendo em 882 áreas distintas; 29.709 óbitos foram reportados em um seguimento médio de 9,5 anos. Homens e mulheres vivendo em áreas próximas ou afiliadas a práticas religiosas tiveram menores taxas de mortalidade (OR [homens] = 0,75; 95% IC, 0,67-0,84; OR [mulheres] = 0,86; 95% IC, 0,67-0,96).

Religiosidade/espiritualidade e doença cardiovascula

Religiosidade/espiritualidade e doença cardiovascular
                                                    http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf

                                                    HÉLIO PENNA GUIMARÃES, ÁLVARO AVEZUM



Hummer et al. (1999) foram os primeiros a demonstrar a correlação entre prática religiosa e redução da mortalidade por causa cardiovascular, mesmo após ajustes em análise multivariada para sexo, idade, educação, etnia e 
status social. No entanto, no que concerne à adoção de hábitos de vida saudável, após os ajustes para todas as 
co-variáveis e estilo de vida saudável, projeta-se p = 0,86 (ns), que, a despeito da perda de significância, indiretamente reforça o papel da religiosidade/espiritualidade em mudanças de hábito de vida.
Goldbourt et al. (1993) avaliaram o impacto da religião ortodoxa na doença arterial coronária em 10.059 pessoas em Israel por cerca de 23 de seguimento, demonstrando associação não ajustada de RR de 0,69 (p = 0,05), e após ajuste para fatores de confusão, como hábitos de vida, RR de 0,72 (p = 0,05). Colantonio et al. (1992), avaliando fatores preditores psicossociais para acidente vascular cerebral (AVC) em idosos não institucionalizados, determinaram, em 2.812 idosos de Connecticut,  status de depressão por meio da escala do Center for Epidemiologic Studies Depression Scale (CES-D). Esse estudo revelou altos valores de escores de CES-D como importante preditor de AVC (p < 0,05), e a prática freqüente de serviços religiosos foi associada à menor incidência de AVC (p < 0,001). Porém, ao se dispor esse achado em análise multivariada (p < 0,05), correlacionando sexo, idade, hipertensão, diabetes e tabagismo, nem os escores de depressão, nem a análise de religiosidade, mantiveram sua significância.
Em geral, os achados sugerem que aspectos da religiosidade com a prática semanal (RR = 0.93, ns) podem ser fatores protetores contra doenças cardiovasculares, por promover melhor controle de ansiedade/estresse e hábitos saudáveis de vida (Powell  et al., 2003). No entanto, certamente mais estudos longitudinais devem ser efetuados para a comprovação de sua relação com a morbidade cardiovascular.

O impacto da espiritualidade na saúde física. Impact of spirituality on physical health

Impact of spirituality on physical health
                                                                                        http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf

                                                                              HÉLIO PENNA GUIMARÃES e ÁLVARO AVEZUM


Palavras-chave: Espiritual, religião, saúde física.

Resumo
Contexto: As implicações da espiritualidade na saúde vêm sendo cientificamente avaliadas e documentadas em centenas de artigos, demonstrando sua relação com vários aspectos das saúdes física e mental, provavelmente positivos e possivelmente causais. Objetivo: Apresentar de forma concisa as evidências recentes do papel da espiritualidade e da religiosidade em diversos campos da prática clínica diária. Métodos: Para uma revisão descritiva foram selecionados artigos no banco de dados Medline, por meio dos unitermos: “religiosity”, “religion”, “spiritual” e “spirituality”.
Os artigos foram avaliados por análise de método e determinação de limitações de desenho. Resultados: Foram apresentados de forma descritiva e concisa relevantes achados referentes às associações entre a espiritualidade/religiosidade e atividade imunológica, saúde mental, neoplasias, doenças cardiovasculares e mortalidade, além de aspectos de intervenção com uso de prece intercessória. Conclusões: Há crescente acúmulo de evidências sobre a relação entre religiosidade/espiritualidade e saúde física, mas por essas evidências ainda não serem adequadamente robustas, este se constitui em promissor campo de investigação.
Guimarães, H.P.; Avezum, A. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 88-94, 2007



A espiritualidade poderia ser definida como uma propensão humana a buscar significado para a vida por
meio de conceitos que transcendem o tangível: um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que
pode ou não incluir uma participação religiosa formal (Saad et al., 2001; Volcan, 2003). A espiritualidade e sua relação com a saúde tem se tornado claro paradigma a ser estabelecido na prática médica diária. A doença permanece como entidade de impacto amplo sobre aspectos de abordagem desde a fisiopatologia básica até sua complexa relação social, psíquica e econômica; é fundamental reconhecer que esses diversos aspectos estão correlacionados em múltipla interação


A espiritualidade, a despeito de seu freqüente imbricar com a religião, historicamente tem sido ponto de satisfação e conforto para momentos diversos da vida, bem como motivo de discórdia, fanatismo e violentos confrontos.  Convém definir neste cenário que a religiosidade e a espiritualidade, apesar de relacionadas, não são claramente descritas como sinônimos. A religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo. A espiritualidade está afeita a questões sobre o significado e o propósito da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência e significados (Saad et al., 2001; Powell et al., 2003).
A comprovação da utilização de aspectos distintos da espiritualidade e da religiosidade como suporte, terapêutica e determinação de desfechos positivos em diversas doenças tem constituído emblemático desafio para a ciência médica. Em se considerando as limitações éticas e de método, demonstra-se o quão dificultoso se faz mensurar e quantificar o impacto de experiências religiosas e espirituais pelos métodos científicos tradicionais.Em recente levantamento de dados no site de pesquisa para publicações médicas indexadas de maior impacto clínico (sistema Medline) e utilizando as palavras-chave “religion and health”, foram encontrados cerca de 35.828 publicações entre 1982 e 2007; em se modificando para “spirituality”, foram encontrados 4.434 artigos no mesmo período. Nesse contexto, discernir os melhores desenhos de estudo e encontrar as melhores evidências que suportem a associação entre espiritualidade e saúde constitui novo, intrigante e profundo paradigma para a medicina moderna.  Este artigo tem por objetivo apresentar de forma
concisa as evidências recentes do papel da espiritualidade e da religiosidade em diversos campos da prática
clínica diária.

continua...  http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf

domingo, 4 de setembro de 2011

Cristão no século XXI

Ser cristão no século XXI

por Luiz Felipe Pondé -   Um dos mo ti vos para ser cris tão hoje seria recuperar a sabedoria da tradição cristã anterior às manias e aos dogmas modernos. Ser cristão pode significar muitas coisas. Interessa-me, especifica- mente, o modo como o pensamento cristão se constituiu como crítica do dogma humanista da perfectibilidade. Acredito que a reflexão sobre o orgulho seja central na economia psíquica humana. E acredito ser essencial que resistamos às bobagens modernas que transformaram tudo em auto ajuda.
 Luiz Felipe Pondé leciona no Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião e
do Departamen to de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e é
professor e pesquisador convidado em Mística Medieval da Universidade de Marburg, Alemanha. Graduado em Medicina, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), e em Filosofia Pura, pela USP, é mestre em 
História da Filosofia Contemporânea, também pela USP, e em Filosofia Contemporânea, pela Université de Paris VIII, França.

por Martin Dreher -  Sou cristão por que fui conquistado por uma criança com membros frágeis, que foi 
deitada em um cocho, pois não havia espaço para ela em sua sociedade. Não nasceu nem no palácio de Augusto nem no palácio de Herodes, mas entre os animais. Teve pai e mãe, mas precisou nascer na
margem da margem, em terra ocupada por estrangeiros, em aldeia insignificante, reverenciada por gente da margem: pastores e pastoras fedorentos e astrólogos nada ortodoxos. Sou cristão porque fui conquistado pelos membros frágeis do crucificado do Gólgota, que me ensinou a ter esperança e a depositá-la no Rei no de Deus, utopia que buscou concretizar em sua existência, lembrando as aves do céu, as raposas em seus 
covis, os lírios do campo, a semente que cresce enquanto dormimos, partilhando cinco pães e dois peixes 
e conseguindo saciar quem tinha fome, que soube devolver à mãe o único filho, amparo na velhice,
que soube devolver dignidade a excluídos. Com base nesses sinais, manifesto minha esperança no
Reino de Deus e procuro comunicá-los, mesmo que de maneira imperfeita e provisória. Estou
convicto de que eles são mais importantes do que ciência e técnica e que um mundo secularizado
carece, desesperadamente, deles.
Martin Dreher é graduado em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST), e doutor na
mesma área pela Universität München, Alemanha, com a tese Kir che und De utschtum in der
Entwicklung der Evangelischen Kirche Lutherische Bekenntnisses in Brasilien.

Oncologistas se sentem despreparados para lidar com a morte


Oncologistas se sentem despreparados 
para lidar com a morte
                                                                                                                      Por agenusp@usp.br                                                                        

Estudo da psicóloga Lílian Cláudia Ulian Junqueira, desenvolvido na  Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, revelou que médicos oncologistas sentem a falta de abordagem das várias dimensões do ser humano no ensino de graduação. O estudo aponta que os médicos, apesar da marca positivista na formação, já enxergam além dos aspectos orgânicos do paciente. “Além da formação acadêmica, o profissional precisa entender a própria finitude para poder olhar as várias dimensões do paciente que vivencia sua terminalidade”, diz a pesquisadora.
Na pesquisa, orientada pelo professor Manoel Antônio dos Santos, da FFCLRP, Lílian entrevistou oito oncologistas. Para a coleta e análise dos dados utilizou o método fenomenológico, que se propõe a ir à essência das coisas, valorizando para tanto a descrição que cada participante do estudo oferece de suas vivências. Os resultados revelaram que os médicos têm uma abertura para a compreensão da experiência religiosa do paciente. No entanto, o fazem com muita dificuldade e ambigüidade quanto às condutas a serem adotadas, o que os faz transitar entre o cuidar autêntico e o inautêntico.
“Apareceram momentos em que eles se sentiram desconfortáveis ou mesmo irritados, por exemplo, quando o tratamento é preterido pelo paciente, que o coloca em segundo plano, justamente na hora em que se esperava adesão à terapêutica instituída. Nesses casos, as possibilidades de cura são delegadas a Deus. Nessa hora, o profissional se sente impotente e destituído de importância”, conta Lílian. “Em outros momentos, eles perceberam que o paciente necessita do movimento de se ‘religar’ com o transcendental, que a religiosidade propõe, lembrando aqui da origem etimológica do termo religião”.
De acordo com a psicóloga, os médicos contam que respeitam as crenças dos pacientes porque sabem que, com isso, conseguirão se aproximar deles e, assim, poderão levar o tratamento em paralelo à busca de apoio espiritual. “O médico percebe que a espiritualidade pode ser uma excelente aliada na luta contra as adversidades e o sofrimento, que são inerentes ao adoecimento por câncer”, acrescenta.
Sofrimento
Lílian aponta que o estudo procurou fornecer subsídios para o planejamento de intervenções terapêuticas e pode contribuir, principalmente, na aproximação com o paciente em situação de sofrimento. “Muitas vezes os profissionais, que estão numa posição de acolher tanta dor e sofrimento, não têm com quem compartilhar seus sentimentos. Não dispõem de um espaço formal para cuidarem de si”, alerta. “Por essa razão, eles apontam a necessidade  de maior atenção à dimensão psicológica do ser humano no currículo de  graduação em Medicina, o que é recomendado pela filosofia dos cuidados paliativos”.
Segundo a psicóloga, com o amadurecimento do profissional, por mais que ele traga a marca positivista da formação, acaba olhando o paciente como ser humano, um ser integral e, portanto, um ser de possibilidades. “A maioria tem uma família constituída, pratica alguma atividade de lazer, ou seja, vivencia outros aspectos da vida, o que é fundamental para que enxergue também outras dimensões no paciente”, afirma.
Lílian observa ainda que o aprofundamento contemporâneo da questão da bioética, também fez surgirem muitas dúvidas e o próprio médico não tem um parâmetro claro dos limites, ou esses limites não estão tão claros. “O médico, no decorrer de sua formação e de sua prática, exercita forte obstinação terapêutica”, ressalta. “Mas, se ele começa a pensar na sua própria finitude, automaticamente vai pensar no outro, no que é morrer  bem, do ponto de vista biopsicossocial e espiritual”.
Essas questões são abordadas em profundidade na disciplina O Câncer, a Morte e o Morrer, oferecida anualmente pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia, da FFCLRP.Os resultados da pesquisa serão apresentados ainda este mês para obtenção do título de mestre junto ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da FFCLRP. Os resultados preliminares do estudo, no entanto, já foram premiados, em agosto, no X Congresso da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia e III Encontro Internacional de Psico-Oncologia e Cuidados Paliativos, realizados em Fortaleza, Ceará. A pesquisadora recebeu o primeiro lugar entre as comunicações orais e obteve a segunda colocação entre os pôsteres apresentados.
Para o orientador da pesquisa, os prêmios recebidos significam o reconhecimento da área de Psico-oncologia e revelam a necessidade de novas pesquisas para desvelar as percepções de um profissional que é chave nos serviços de saúde e que ainda ocupa uma função crucial dentro da assistência em oncologia, mesmo em época de multi e interdisciplinaridade. “Cuidar transcende o simples tratar, pois abarca, além das dimensões físicas, as demandas emocionais, espirituais, sociais, culturais e éticas do doente”, ressalta Manoel Antônio dos Santos. “Cuidar de alguém que vivencia sua finitude exige uma assistência que não seja centralizada nas necessidades físicas e no alívio da dor somente, mas que tende a ver a integralidade do ser, em seu caráter de impermanência”.

                             (Fonte: Rosemeire Soares Talamone, do Serviço de Comunicação Social da Prefeitura do Campus de Ribeirão Preto)
                                                                                                          http://www.usp.br/agen/?p=6215
                                                                                                           Publicado em 16/setembro/2008
                                                                            masantos@ffclrp.usp.br