C A H E R J

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Capelania Evangélica do Rio de Janeiro

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Stress e sua influência no ambiente de trabalho e na qualidade de vida.


O Stress e sua influência no ambiente de trabalho e na qualidade de vida.
Enf.ºAlisson Daniel Fernandes da Silva
Vivemos hoje em um mundo cheio de desafios e obstáculos e acabamos priorizando nossas atividades profissionais e esquecendo nossa saúde.
O stress é um dos principais motivos que prejudicam nosso rendimento no trabalho e nossa qualidade de vida. Assim podemos definir o stress como uma entidade que causa transtornos mentais e físicos onde o indivíduo perde a capacidade de distinguir experiências reais das suas expectativas pessoais. Ou ainda pode ser relacionado com um distúrbio que leva a agressão e ao desconforto da pessoa estressada, que ainda terá que arcar com as conseqüências do seu ato impensado.
No trabalho situações que podem levar ao stress são aquelas relacionadas a reuniões, resolução demorada dos processos administrativos, operacionais e conflitos pessoais com os colegas de trabalho. Em nossa vida pessoal, outros motivos estão associados como casos de morte, nascimento, casamentos, doenças com familiares e amigos. Estão relacionados também problemas de ordem financeira e amorosa.
Quando estamos estressados nossa imunidade também diminui em função do cortisol liberado pelas nossas glândulas supra-renais, sendo que a principal causa do aumento do cortisol na corrente sanguínea é a destruição dos glóbulos brancos, que são células de defesa do organismo.
O tratamento do stress pode ser farmacológico com a utilização de antidepressivos ou também através de atitudes que buscam a nossa reflexão e a partir daí, modificarmos a maneira de conduzir os fatos estressantes.
Na área da enfermagem, muitos profissionais trabalham no seu limite, e muitos fatores contribuem para isso, dentre eles podemos citar:
Ø Trabalho em dois empregos;
Ø Condições precárias de trabalho;
Ø Baixa remuneração;
Ø Excesso de serviço.
Os dirigentes das instituições de saúde não valorizam o trabalho da enfermagem e a falta de investimento na qualidade de vida destes profissionais acaba refletindo na assistência prestada ao paciente.
A carga excessiva de trabalho demonstra que a qualidade da assistência ficará prejudicada por mais que este profissional seja dedicado, atencioso e tecnicamente capaz. As exigências aumentam a cada dia e os profissionais de enfermagem não conseguem acompanhar esta demanda, não conseguem realizar cursos de atualização e com isso, ficam sempre desatualizados.
Existem instituições que conseguem aliar condições de trabalho, remuneração, atualização e qualidade de vida dos seus profissionais, mas ainda temos muito a progredir.

domingo, 11 de setembro de 2011

Humanização do atendimento em saúde


Humanização do atendimento em saúde

23 de setembro de 2009


Humanização do atendimento em saúde: conhecimento veiculado na literatura brasileira de enfermagem
RESUMO

A proposta deste estudo qualitativo é analisar a produção científica sobre "humanização em saúde/enfermagem", compreendendo quais concepções sobre humanização vêm se configurando. Realizou-se levantamento bibliográfico, sendo analisados 42 artigos, do final da década de 50 até os dias atuais, nos periódicos Revista Brasileira de Enfermagem, Revista Paulista de Hospitais e Texto e Contexto. Efetuaram-se análise e síntese integrativa dos mesmos. A temática vem se constituindo, desde uma perspectiva caritativa até a preocupação atual com a valorização da saúde como direito do cidadão, sendo inserida em projeto político de saúde. Artigos de todas as décadas mostram a necessidade de investir no trabalhador, valorizando a dimensão subjetiva. Todavia, a temática é pouco abordada na formação. A humanização do atendimento supõe encontro entre sujeitos que compartilham saber, poder e experiência vivida, implicando em transformações políticas, administrativas e subjetivas. 
INTRODUÇÃO
A temática humanização do atendimento em saúde mostra-se relevante no contexto atual, uma vez que a constituição de um atendimento calcado em princípios como a integralidade da assistência, a eqüidade, a participação social do usuário, dentre outros, demanda a revisão das práticas cotidianas, com ênfase na criação de espaços de trabalho menos alienantes que valorizem a dignidade do trabalhador e do usuário.
Na possibilidade de resgate do humano, naquilo que lhe é próprio, é que pode residir a intenção de humanizar o fazer em saúde.
Buscar formas efetivas para humanizar a prática em saúde implica em aproximação crítica que permita compreender a temática para além de seus componentes técnicos, instrumentais, envolvendo, essencialmente, as suas dimensões político-filosóficas que lhe imprimem um sentido.
Nessa aproximação, se faz primordial, inicialmente, a análise do conhecimento já produzido acerca dessa temática. E é nessa direção que se encaminha a proposta deste estudo: analisar a produção científica da enfermagem, acerca da temática "humanização em saúde", veiculada em periódicos nacionais, na busca de compreender quais as concepções de humanização que vêm se configurando, ou seja, o que é a humanização veiculada nesses textos.

CAMINHAR METODOLÓGICO
Trata-se de um estudo bibliográfico* cuja trajetória metodológica a ser percorrida apóia-se nas leituras exploratória e seletiva(1) do material de pesquisa, bem como em sua revisão integrativa(2-3), contribuindo para o processo de síntese e análise dos resultados de vários estudos, criando um corpo de literatura compreensível.
O levantamento bibliográfico propriamente dito foi realizado através do LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), utilizando palavras-chaves como humanização/saúde/enfermagem. Porém, considerando que algumas revistas de enfermagem ainda não são aí indexadas, mas apesar disso podem servir de referência para o fazer cotidiano, foi também efetuado um levantamento manual de alguns periódicos, após consulta ao acervo de periódicos da Sala de Leitura Glete de Alcântara da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP e Biblioteca Central do Campus de Ribeirão Preto.
O levantamento abrangeu desde o período inicial de publicação de cada periódico até os dias atuais. A compreensão das concepções sobre "humanização em saúde/enfermagem" foi enriquecida a partir da aproximação a pesquisas realizadas em distintos períodos, possibilitando que a temática se configurasse, adquirindo forma e concretude em contextos diferentes.
Foram encontrados 81 artigos referentes à humanização em saúde nos seguintes periódicos consultados: Acta Paulista de Enfermagem (1988 a 2002), Cogitare Enfermagem (1996 a 2000), Enfermagem Atual (1978 a 1982 - essa revista foi interrompida em 1983), Enfermagem Científica (1990 a 1991 - revista interrompida em 1992), Enfermagem Moderna (1983 a 1985 - revista interrompida em 1986), Enfermagem em Novas Dimensões (1975 a 1979), Enfoque (1972 a 1996), Revista Baiana de Enfermagem (1981 a 2000), Revista Brasileira de Enfermagem (1955 a 2002), Revista da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (1967 a 2001), Revista de Enfermagem da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (1993 a 2002), Revista Gaúcha de Enfermagem (1976 a 2001), Revista Latino-Americana de Enfermagem (1993 a 2002), Revista Paulista de Enfermagem (1981 a 2002), Revista Paulista de Hospitais (1953 a 1995), Texto e Contexto Enfermagem (1992 a 2000), exceto na Revista Baiana de Enfermagem e Enfermagem Científica. Nessa busca inicial foram considerados o título e o resumo do artigo para seleção ampla de possíveis trabalhos de interesse.
Após o levantamento bibliográfico, realizou-se a leitura exploratória do material encontrado. Com essa leitura, pôde-se obter uma visão global do material, considerando-o de interesse ou não à pesquisa. Em seguida, efetuou-se a leitura seletiva, a qual permitiu determinar qual material bibliográfico realmente era de interesse desta pesquisa. Considerando também o grande número de artigos encontrados, e sendo esse um trabalho de iniciação científica, optamos por restringir a análise a algumas revistas, a partir do seguinte critério: presença de número expressivo de publicações relativas à temática em questão.
Finalmente, foram delimitados os textos a serem interpretados em um total de 42 artigos que abordam a humanização do atendimento em saúde/enfermagem, nos seguintes periódicos: Revista Brasileira de Enfermagem, Revista Paulista de Hospitais e Texto e Contexto que apresentaram o maior número de publicações sobre a temática em estudo, respectivamente 14, 11 e 17 artigos.
A partir desse momento, os artigos foram colocados em ordem cronológica, sendo feitos: o reconhecimento com enfoque nos seguintes aspectos que compuseram uma "ficha bibliográfica": dados de identificação do artigo - título, nome do periódico, volume, número e ano de publicação e dados de identificação do pesquisador: nome, categoria profissional, local de atuação; a análise do artigo: apreenção das concepções acerca de humanização, ou seja, quais as idéias sobre "humanização em saúde/enfermagem" veiculadas no artigo; a síntese integrativa: integrando os artigos lidos, em suas diferenças e semelhanças "conceituais" foi possível uma aproximação à concepção geral acerca da humanização em saúde/enfermagem, conforme tratada na produção científica analisada.
Durante o processo de análise e de síntese integrativa foi fundamental estabelecer uma relação aberta com o texto, permitindo que ele se revelasse em suas intenções, sendo essencial o diálogo pesquisador-texto-contexto.

A APROXIMAÇÃO A ALGUMAS IDÉIAS SOBRE A HUMANIZAÇÃO DO ATENDIMENTO EM SAÚDE/ENFERMAGEM
A seguir, passamos a apresentar algumas idéias que emergiram da análise dos artigos, permitindo uma aproximação ao modo como vem se configurando a temática, nas publicações em foco, ao longo do final da década de 50 e décadas de 60, 70, 80, 90 e primeiros anos do século atual.
Antes de iniciarmos essa apresentação geral propriamente dita, cabe ressaltar que a maioria dos autores é enfermeiro que atua na docência. Alguns artigos foram escritos por outros profissionais como psicólogo, sociólogo, médico, economista, arquiteto, administrador e capelão, e poucos por aluno de graduação.
A humanização se faz necessária considerando que nos serviços de saúde há situações "desumanizantes"
São apontados, em todas as décadas, muitos aspectos considerados "desumanizantes", relacionados a falhas no atendimento e nas condições de trabalho.
Em relação a falhas na organização do atendimento são apontadas, por exemplo, as longas esperas e adiamentos de consultas e exames, ausência de regulamentos, normas e rotinas, deficiência de instalações e equipamentos, bem como falhas na estrutura física: "(...) espera às consultas e à entrada, nas admissões em tempo dilatado, nos adiamentos impostos aos exames e aos tratamentos, no amontoado humano dentro das salas (...)"(4)**.
São também enfatizados aspectos "desumanizantes" ligados especificamente com a relação com o doente como o anonimato, a despersonalização, a falta de privacidade, a aglomeração, a falta de preparo psicológico e de informação, bem como a falta de ética por parte de alguns profissionais: "O doente é um número, um caso, objeto de atividades, mas não um centro de interesse; permanece geralmente sem esclarecimentos sobre a própria sorte e sem explicação sobre o que lhe é imposto"(4).
"(...) Ao não se dar conta onde termina a máquina e começa o paciente, a relação com a máquina pode tornar o cuidado de enfermagem um ato mecânico e o paciente ser visto como uma extensão do aparato tecnológico" [refere-se ao atendimento em CTI](5).
No que diz respeito às condições de trabalho, os textos mostram que baixos salários, dificuldade na conciliação da vida familiar e profissional, jornada dupla ou tripla, ocasionando sobrecarga de atividades e cansaço, o contato constante com pessoas sob tensão geram ambiente de trabalho desfavorável: "As instituições não oferecem um ambiente adequado, recursos humanos e materiais quantitativos e qualitativos suficientes, remuneração digna e motivação para o trabalho, oportunidade para os enfermeiros se aperfeiçoarem em sua área de atuação (...) para que estes possam exercer as suas funções de uma forma mais humanizada (...)"(6).
A racionalização, a mecanização e a burocratização excessiva do trabalho, ao impedirem que o trabalhador desenvolva sua capacidade crítico-criativa, atuam como "desumanizantes", na perspectiva de alguns autores. Esse modo de organização do trabalho está presente na modalidade funcional, muito utilizada na enfermagem, cuja ênfase é na realização de tarefas fragmentadas, perdendo de vista o paciente na sua totalidade: "(...) o paciente deixa de ser uma pessoa para ser um caso interessante (uma úlcera, uma estenose mitral, etc...) ou um número. Com freqüência a enfermagem planeja e distribui tarefas em função do número de banhos de leito, curativos, inalações etc... O paciente individualizado, com seus problemas, temores e necessidades, não é sempre levado em conta (...)"(7).
Humanização emerge como necessidade no contexto da civilização técnica
As situações "desumanizantes" presentes nas instituições de saúde fazem parte do contexto mais amplo da civilização moderna, segundo alguns autores.
Muitos textos, ao longo dos anos, mostram a importância da humanização, confrontando-a com o desenvolvimento tecnológico na sociedade atual. Ou seja, considera-se que o desenvolvimento tecnológico vem dificultando as relações humanas, tornando-as frias, objetivas, individualistas e calculistas: "Pela técnica, o homem projeta e realiza coisas impossíveis no campo da física, eletrônica, medicina. Com isto modifica-se a relação homem-mundo. Torna-se indireta. Deixa de ser concreta e passa a ser um tanto abstrata, pois, o cálculo, os aparelhos tomam conta. Daí o risco de o relacionamento homem-homem também tornar-se calculista, de aparelho, de fórmula, frio, pouco humano"(8).
A maioria dos textos das décadas de 50, 60 e 70, ao se referirem ao confronto tecnologia x humanização, compreendem a humanização como uma possibilidade de resgatar valores caritativos/religiosos.
Ainda nessas décadas, no contexto da enfermagem, é também valorizado "o interesse humano pelo próximo", em uma lógica caritativa: "Nessa conjuntura [sociedades atuais] enquadram-se muitos dos aspectos da atividade de enfermagem, especialmente aqueles ligados à ação da própria vontade dirigida pela sensibilidade afetiva - amor, pena, compaixão - que se vão embotando para dar lugar a uma racionalização - mais condizente com a mecanização da época atual (...)"(9).
Apesar da idéia predominante de confronto entre tecnologia e humanização, também é mencionado que ambas podem ser conciliadas: "(...) não existe incompatibilidade ou antagonismo entre ciência e ideal, entre humanização e racionalidade. Portanto, deve-se procurar crescente adequação da ciência ou racionalidade como meio para se atingir um mundo cada vez mais humano"(7).
Em abordagem mais crítica e contextualizada da relação tecnologia/humanização, é comentada a possibilidade de conciliar a humanização na enfermagem, apontando que: "(...) Talvez devêssemos investir em teorizações que, ao invés de representarem a Enfermagem como interface de humanização, explorassem a potencialidade de pensar a Enfermagem com um (...) saber/fazer híbrido onde as fronteiras entre natureza e cultura, entre ciência e vida cotidiana (...) entre humano e máquina fossem deslocadas de tal forma que estas oposições não pudessem ser mais acionadas para a hierarquização e a dominação (...)"(10).
A compreensão da humanização está relacionada a um modo de perceber o paciente no contexto dos serviços de saúde
Há um discurso que enfoca a situação de fragilidade e vulnerabilidade vivida pelo doente, considerando seu afastamento das atividades profissionais e familiares, a dor física e psicológica: "(...) O doente que já está à margem da vida da comunidade, da atividade profissional e da vida de família, sofre a dor física, o medo da morte, inquietude pelos entes queridos, preocupação pelo futuro, sentimentos de inferioridade"(4).
Em alguns textos da década de 70, essa fragilidade parece ser enfocada de um modo que enfatiza ainda mais a dependência do paciente, visto com sentimento de piedade: "(...) o doente continuará a ser fraco, dependente, sofredor no seu corpo e no seu espírito (...)"(11).
É também comentado que, ao ser admitido na instituição de serviço, o paciente permanece com seus sentimentos, suas idéias, enfim, com sua história de vida, devendo ser mantido um elo com seu meio familiar e social, enfocando-o como um todo.
Cabe ressaltar que um texto do ano 2000 refere-se ao usuário do serviço de saúde como sujeito: "(...) Humanizar significa reconhecer as pessoas que buscam nos serviços de saúde a resolução de suas necessidades de saúde, como sujeitos de direitos (...) é observar cada pessoa em sua individualidade, em suas necessidades específicas, ampliando as possibilidades para que possa exercer sua autonomia (...)"(12).
Humanização relacionada à organização do serviço de saúde, envolvendo investimento na estrutura física da instituição e na revisão de estrutura e métodos administrativos
Face às situações "desumanizantes", os textos mostram possibilidades de modificá-las através do investimento na estrutura física e nos métodos administrativos da instituição, bem como no trabalhador em relação às condições de trabalho.
Alguns textos das décadas de 50, 60 e 70 enfocam, com muita ênfase, a necessidade de humanizar os serviços de saúde, especificamente hospitalares, relacionando-a à organização do serviço em termos de investimento na sua estrutura física. E também são feitas considerações sobre a arquitetura, o mobiliário, os equipamentos, como elementos fundamentais: "A arquitetura, o acabamento, as dimensões das unidades de serviço, das unidades de Enfermagem, posição e tamanho dos quartos, a localização, o tamanho e acabamento das salas de estar são alguns itens importantes no que diz respeito à parte física, muito influentes no preparo num ambiente hospitalar humano"(8).
A revisão de estrutura e métodos administrativos é outro aspecto apontado, porém, com menor ênfase.
Humanização implica também investir no trabalhador para que ele tenha condições de prestar atendimento humanizado
É priorizada a importância do trabalhador como elemento fundamental para a humanização do atendimento, devendo ser implementadas ações de investimento em termos de número suficiente de pessoal, salários e condições de trabalho adequadas, bem como atividades educativas que permitam o desenvolvimento de competência para o cuidar.
Em se tratando do trabalhador, em alguns textos das décadas de 60, 70 e início da década de 80, são feitos comentários a seu respeito, incluindo a enfermeira e o médico, com destaque para algumas características que esses trabalhadores devem possuir para reponder por suas atividades, cabendo ressaltar que muitas dessas características têm um cunho caritativo: "(...) Por sua presença, sua doçura, pela repetição de pequenos atos infinitamente delicados, por sua compaixão e seu sorriso (...) a enfermeira reconforta, acalma ou estimula o doente trazendo-lhe esse calor humano insubstituível (...)"(4).
Ao ser dada ênfase no trabalhador, como elemento fundamental para a humanização, são também apontados alguns "meios" mais subjetivos relacionados à atitude profissional, para humanizar o atendimento em saúde.
Nesse contexto, é apontado como necessário o desenvolvimento da afetividade, sensibilidade e abertura para a escuta e o diálogo, com vistas a acolher o usuário dos serviços de saúde: "Outro aspecto que envolve reflexão e mudança por parte da equipe de saúde para a humanização da assistência diz respeito ao vínculo (...). Criar vínculos implica em estabelecer relações tão próximas e tão claras que todo o sofrimento do outro nos sensibiliza. (...)"(13).
A humanização é pouco abordada no processo de formação
Apesar da referência significativa ao investimento no trabalhador, a formação não foi foco de discussão nos textos analisados.
Os artigos analisados quase não se referem à humanização no contexto do ensino de enfermagem. Aqueles que o fazem valorizam a importância de analisar o processo ensino-aprendizagem, envolvendo mudanças na grade curricular que dêem igual ênfase às Ciências Sociais e Humanísticas em relação às Físicas e Biológicas(14); bem como na relação professor-aluno, considerando que é cobrado que o discente estabeleça uma relação sujeito-sujeito com o cliente, porém, esse discurso acaba sendo pouco vivenciado pelo aluno na escola, predominando uma relação docente-aluno como sujeito-objeto(15).
Além disso, admite-se a dificuldade em ensinar "humanização" nas relações interpessoais, considerando as questões subjetivas que se fazem presentes como, por exemplo, a sensibilidade.
A humanização insere-se em um projeto político de saúde
Alguns textos(12-13,16), a partir da década de 90, extrapolam a compreensão da humanização restrita à relação intersubjetiva com o doente e, mesmo às questões relacionadas à estrutura administrativa de uma dada instituição ou serviço de saúde, abordando a temática como projeto político, ou seja, para se assegurar um atendimento humano faz-se necessária a constituição de um sistema de saúde que se paute em valores como a eqüidade e a integralidade da atenção, vislumbrando trabalhador e usuário como cidadãos.
Tratando especificamente das políticas de saúde e da humanização da assistência, um dos textos(13), por exemplo, aponta que as discussões sobre a humanização, no campo da saúde, remontam algumas décadas, questionando o sistema de saúde vigente até a década de 80, centrado na figura do médico, no biologicismo e nas práticas curativas. Enfatiza ainda que o projeto SUS - Sistema Único de Saúde - representa aquilo que poderia ser a grande política de humanização do atendimento em saúde no Brasil.
Nesse momento, passamos a apresentar uma análise da temática em foco.

HUMANIZAÇÃO: DA PERSPECTIVA CARITATIVA À VALORIZAÇÃO DO SUJEITO/CIDADÃO
A humanização, a partir da análise desses artigos, vem mostrando-se como temática muito enfatizada no contexto de saúde/enfermagem, em todas as décadas - final da década de 50 até os dias atuais - apontadas neste estudo.
Nos textos do final da década de 50, décadas de 60, 70 e 80, a humanização é enfocada, predominantemente, de modo circunscrito às relações interpessoais estabelecidas com o doente, bem como às questões administrativas de dada instituição (predominantemente hospitalar), mostrando-se desarticulada das dimensões político-sociais do sistema de saúde.
Cabe ressaltar que até a década de 80, o modelo de assistência à saúde no país era centrado no atendimento curativo, especializado, individual, tendo como principal espaço para as ações de saúde, o hospital. Além disso, não se constituía como direito de todos.
A partir do movimento da reforma sanitária, nos anos 80, começa a se delinear um novo projeto de saúde que passa a valorizá-la como direito de todo cidadão a ser garantido pelo Estado, envolvendo princípios como a eqüidade do atendimento, a integralidade da atenção e a participação social do usuário.
Assim, alguns textos que enfocam a humanização, a partir da década de 80, a relacionam à possibilidade de constituir um projeto político, garantindo a operacionalização de um serviço de saúde que considere a dignidade do usuário e do trabalhador, como cidadãos.
Desse modo, ao longo desses anos, a temática humanização vem se constituindo, no contexto de saúde, desde uma perspectiva caritativa até a preocupação atual com a valorização de saúde como direito do cidadão.
Nesse sentido, os textos, principalmente até o início da década de 80, mostram um discurso idealizado que denota uma percepção do doente como ser frágil e dependente.
Nessa condição, o doente parece despertar piedade dos trabalhadores, sendo valorizada algumas características que os profissionais devem possuir para terem condições de prestarem atendimento humano em saúde como, por exemplo, doçura, compaixão, espírito de caridade, capacidade para perdoar, desprendimento, sendo até enfocado que são privilegiados e escolhidos por Deus.
Nesse discurso, revela-se a dimensão caritativa da humanização em saúde, cabendo salientar que, na enfermagem, esse discurso construiu-se historicamente, a partir de nossas origens caritativas.
A valorização do doente/usuário do serviço de saúde como sujeito de direitos, capaz de exercer sua autonomia, é abordada nos textos mais atuais (década de 90 aos dias atuais), revelando uma idéia de humanização distinta da lógica da caridade, anteriormente mencionada, compreendendo-a como a possibilidade de dar condições para que o usuário seja participante. "Partilhar das decisões é um caminho para implementar o princípio ético da autonomia dos indivíduos e da coletividade"(12).
Ainda em relação ao modo como é percebido o doente, cabe destacar que artigos da década de 70 até a atualidade concebem a idéia do homem como "totalidade", "biopsicossocial".
Esse discurso é muito significativo no campo da enfermagem, no que se refere à humanização, mas ainda é pouco clara a sua compreensão e, principalmente, a sua consideração concreta no ato de cuidar que, muitas vezes, restringe-se ao cumprimento de tarefas parceladas que fazem parte do trabalho fragmentado (funcional) em saúde/enfermagem.
Transformar o modo como se concebe o usuário do serviço de saúde (da lógica caritativa à construção da cidadania) é ainda um desafio. Comumente, encontramos atitudes que "infantilizam" o doente, bem como outras que mantêm os trabalhadores fechados em seu próprio saber, com dificuldade para abrir-se à escuta do outro e ao estabelecimento de vínculo.
"Não é humano, portanto, imaginar que a bestialização do indivíduo que adoece, quer através de atitudes carinhosas epuerilizantes, quer através das muralhas do saber e da técnica (...) seja a melhor forma de alcançar a boa prática em saúde e assistência médica"(17).
Do que foi até então exposto, percebemos a importância dos trabalhadores na humanização do atendimento.
Todavia, estarão os trabalhadores da saúde em condições de garantir um atendimento humanizado, tendo em vista que, quase sempre, são submetidos a processos de trabalhos mecanizados que os limitam na possibilidade de se transformarem em pessoas mais críticas e sensíveis, bem como se encontram fragilizados no conviver contínuo com a dor, o sofrimento, a morte e a miséria?
Artigos de todas as décadas mostram a necessidade de investir no trabalhador para a construção de uma assistência humana, considerando, inclusive, as condições adversas de trabalho apontadas como fatores "desumanizantes", tais como baixos salários, número insuficiente de pessoal, sobrecarga de atividades, jornada dupla/tripla de trabalho.
Nesse contexto, os textos se referem a investimentos para a melhoria dessas condições adversas e para dar subsídios para que o trabalhador se desenvolva, a partir da educação continuada.
Acreditamos que tais medidas são difíceis de serem implementadas e, muitas vezes, corre-se o risco da possibilidade da humanização do atendimento ficar restrita à "boa vontade" e esforço individual dos trabalhadores, sem uma política mais efetiva nesse sentido.
Essa problemática torna-se ainda mais relevante, tendo em vista a dimensão subjetiva que está sempre presente na atitude do trabalhador como elemento fundamental na relação com os usuários e com os demais trabalhadores.
Humanizar a relação com o doente realmente exige que o trabalhador valorize a afetividade e a sensibilidade como elementos necessários ao cuidar. Porém, compreendemos que tal relação não supõe um ato de caridade exercido por profissionais abnegados e já portadores de qualidades humanas essenciais, mas um encontro entre sujeitos, pessoas humanas, que podem construir uma relação saudável, compartilhando saber, poder e experiência vivida.
Ter sensibilidade para a escuta e o diálogo, mantendo relações éticas e solidárias, envolve um aprendizado contínuo e vivencial, pouco enfatizado no ambiente de trabalho, levando-se em conta, ainda, o predomínio de estruturas administrativas tradicionais, rígidas e burocratizadas.
As propostas de humanização em saúde também envolvem repensar o processo de formação dos profissionais ainda centrado, predominantemente, no aprendizado técnico, racional e individualizado, com tentativas muitas vezes isoladas de exercício da crítica, criatividade e sensibilidade.
Os conhecimentos sobre a natureza humana e o desenvolvimento de atitudes de valorização do homem são fundamentais para a humanização, sendo prioritário que os currículos incluam conteúdos relativos aos aspectos psicológicos, sociológicos e antropológicos na área da saúde. As matérias humanísticas podem contribuir na busca por novas abordagens em saúde(18).
Ressaltamos, contudo, que não basta a inclusão desses conteúdos, mas repensar a maneira como são articulados à prática para que façam sentido ao aluno.
Em todas as décadas, há alguns textos que fazem referência à humanização em saúde relacionando-a à questão da tecnologia, seja contrapondo-as ou conciliando-as.
Como já comentado, a maioria dos textos das décadas de 50, 60 e 70 confronta humanização e tecnologia, enfatizando a humanização como possibilidade de resgate de valores caritativos, fazendo-se presente o "interesse humano" pelo próximo.
Esse discurso é limitante ao idealizar a humanização como "aquilo que é bom" e repudiar a tecnologia como impeditivo à possibilidade de humanização.
"Ser humano", entretanto, não é algo idealizado. Como humanos podemos constituir ações "humanizantes" que consideram o outro em seus direitos, em sua singularidade e integralidade; enfim, em sua dignidade e, ao mesmo tempo, somos capazes também de constituir ações "desumanizantes" que "coisificam" o outro ou nós mesmos.
Além disso, a tecnologia pode ser compreendida de forma ampliada(19): a tecnologia representada por máquinas e aparelhos (tecnologia dura), a tecnologia que engloba o saber profissional que pode ser estrutura e protocolizado (tecnologia leve-dura) e a tecnologia leve que se refere à cumplicidade, à responsabilização e ao vínculo manifestados na relação entre usuário e trabalhador de saúde.
Cabe considerar ainda que uma das situações "desumanizantes" mencionadas em alguns textos das décadas de 60 e 70, prioritariamente, diz respeito a falhas na estrutura física das instituições de saúde, sendo, assim, apontada a necessidade de investimento nesse sentido.
Consideramos que essa é uma dimensão significativa no processo de humanização, interferindo no conforto e no bem-estar do paciente, desde que não seja vista de modo isolado, mas articulada às demais dimensões - políticas, administrativas e subjetivas - que compõem a humanização.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A temática humanização envolve questões amplas que vão desde a operacionalização de um projeto político de saúde calcado em valores como a cidadania, o compromisso social e a saúde como qualidade de vida, passando pela revisão das práticas de gestão tradicionais até os microespaços de atuação profissional nos quais saberes, poderes e relações interpessoais se fazem presentes. Assim, é necessário compreender a humanização como temática complexa que permeia o fazer de distintos sujeitos.
Compreendemos que a humanização dos serviços de saúde implica em transformação do próprio modo como se concebe o usuário do serviço - de objeto passivo ao sujeito, de necessitado de atos de caridade àquele que exerce o direito de ser usuário de um serviço que garanta ações técnica, política e eticamente seguras, prestadas por trabalhadores responsáveis. Enfim, essa transformação refere-se a um posicionamento político que enfoca a saúde em uma dimensão ampliada, relacionada às condições de vida inseridas em um contexto sociopolítico e econômico.
No processo de humanização do atendimento em saúde/enfermagem, compreendemos que, diferentemente da perspectiva caritativa que aponta o trabalhador como possuidor de determinadas características previamente definidas e até idealizadas, é fundamental a sua participação como sujeito que, sendo também humano, pode ser capaz de atitudes humanas e "desumanas" construídas nas relações com o outro no cotidiano.
Nesse contexto, é fundamental não perder de vista a reflexão e o senso crítico que nos auxiliem no questionamento de nossas ações, no sentido de desenvolver a solidariedade e o compromisso.

Espiritualidade na vida e no consultório faz bem à saúde


Espiritualidade na vida e no consultório faz bem à saúde.


08/01/2004
ANA PAULA DE OLIVEIRA
da Folha de S.Paulo

                                             http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u3126.shtml


A fé pode curar um paciente? Quem frequenta a igreja fica menos doente ou até vive mais? E aquele doente que vai para a cirurgia com a medalha da santa na mão tem chances de se recuperar melhor do que o paciente cético? Médicos de diferentes áreas em todo o mundo --independentemente de credo-- buscam comprovação científica para a relação entre espiritualidade e saúde. Nos EUA, a maioria dos cursos de medicina possui, na grade curricular, disciplinas que discutem doença, fé, cura e espiritualidade com os futuros médicos e como abordar o assunto com seus pacientes. Por aqui, a discussão começa a despontar.

Muitos dos inumeráveis estudos científicos são realizados por importantes universidades estrangeiras e publicados em revistas especializadas em medicina.

Em parte, diz o psiquiatra Harold Koenig, diretor do Centro para Estudos da Religião, Espiritualidade e Saúde da Universidade Duke (EUA), esse "reencontro entre Deus e medicina" partiu dos pacientes, que estão exigindo maior humanização no atendimento, e de constatações científicas de que a crença religiosa pode influir --para o bem ou para o mal-- na saúde do homem.

Os cientistas descobriram que a religião dá aos pacientes mais tranquilidade para expor seus problemas e serenidade para se entregarem a procedimentos cirúrgicos, diz o cardiologista Roque Marcos Savioli, um dos pioneiros no Brasil a levar Deus para o consultório, ou melhor, a introduzir o assunto durante a consulta. Ele até sugere ao paciente mais religioso que reze junto com ele durante o exame clínico. "Isso é um calmante", diz o médico, autor de "Milagres que a Medicina Não Contou" e "Depressão - Onde Está Deus?" (ed. Ágape).

Koenig, o papa dos estudos sobre espiritualidade e medicina, afirma que, entre as 24 pesquisas que já realizou em 20 anos, a que mais o surpreendeu foi a que abordou o efeito da fé sobre o sistema imunológico.

Entre 1986 e 1992, foram colhidas 4.000 amostras sanguíneas de pessoas com mais de 65 anos que frequentavam regularmente a igreja ou não tinham hábitos religiosos. O objeto de estudo foi a interleucina-6, proteína do sangue que indica o estado do sistema imunológico. O nível da proteína foi maior entre os fiéis, "o que quer dizer melhor sistema imunológico".

Para aproximar médicos da vida espiritual de seus pacientes, o American College of Physicians, maior sociedade americana de especialidades médicas, sugere aos profissionais que, durante a anamnese, sejam feitas quatro questões. São elas: se a crença do paciente traz conforto ou estresse --assim é possível saber como ele lida com a doença-- , se a religião poderia interferir no tratamento médico, se considera que sua saúde mental tem relação com a espiritualidade e se gostaria de falar a respeito de religião com o médico. Sobre este último tópico, uma pesquisa americana apontou que 77% dos pacientes gostariam que o médico falasse sobre religião, mas só 10% deles falam em Deus com seus pacientes, diz Savioli.

No entanto abordar o assunto pede cautela. "O paciente pode pensar que está morrendo e que só um milagre divino pode salvá-lo", brinca Koenig.

"Algumas crenças não dão esses benefícios que estão sendo descobertos pela ciência, pois não acreditam em um Deus pacífico, misericordioso, mas em um que pune e é severo. Se não acreditam no perdão, os fiéis se sentem culpados e ficam mais deprimidos, aumentando o nível de cortisol, reduzindo o sistema imunológico e, consequentemente, piorando o quadro clínico", diz Koenig.

E é nisso que se apóiam os críticos mais fervorosos da idéia de estreitar as relações entre medicina e religião. "Muitos pacientes atribuem a doença à punição divina e simplesmente ignoram qualquer tratamento médico, já que 'Deus quis assim'. Pelo excesso de fé, fiéis podem literalmente entregar nas mãos de Deus uma doença grave, negando qualquer tratamento médico", diz o professor de psiquiatria Richard Sloan, da Universidade de Colúmbia (EUA). Além disso, para ele, as metodologias dessas pesquisas não se sustentam, referindo-se a um dos estudos de maior repercussão: o poder da reza a distância.

Publicado na revista científica "American Heart Journal" em 2001, o estudo da Universidade Duke dividiu, em dois grupos, 120 pacientes cardíacos submetidos à angioplastia. Para um grupo de pós-operados, sem que soubessem, foram feitas orações por rabinos, pastores, padres, budistas, entre outros, durante um ano. Resultado: eles tiveram de 25% a 30% de redução dos efeitos colaterais --como morte, insuficiência cardíaca e ataque cardíaco-- em relação aos demais. Essa foi a primeira fase do estudo chamado de Mantra (Monitoring and Actualization of Noetic Trainings). A segunda etapa, com 700 pacientes, acaba de ser concluída. E, surpresa, não houve alteração entre o grupo que recebeu as preces e o outro.

Para Sloan, "isso é ciência 'junkie', é perda de tempo. É difícil estabelecer um controle sobre o grupo, pois muitas pessoas já rezam para o doente". Para o psiquiatra Fabio Herrmann, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pesquisas não fundamentadas podem provar qualquer coisa que se queira. "Mas não se pode negar o fato de que a igreja funcione como substituta da terapia. Aproxima as pessoas", diz ele, autor de "Psicanálise da Crença" (ed. Artmed).

Cruzada religiosa

O Instituto de Saúde dos Estados Unidos pretende aplicar US$ 3,5 milhões nos próximos anos em medicina do corpo e da mente, segundo reportagem de novembro da revista "Newsweek". Persistente na premissa de que os princípios da evolução e a idéia de Deus como criador são compatíveis, o magnata americano John Templeton, 92, aplica US$ 40 milhões por ano em pesquisas que tentam se aproximar de sua convicção.

"É por isso que, no Brasil, não há estudos como lá fora. Não existe investimento financeiro nesse campo de pesquisa", diz Alexander Moreira de Almeida, psiquiatra e coordenador do Neper (Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos). Para Koenig, nesse aspecto o Brasil hoje está como os Estados Unidos estavam dez anos atrás.

A passos curtos, começa-se a fomentar por aqui essa discussão nos meios médicos. No mês passado, rabino, espírita, padre, pastor, estudiosa de filosofia oriental e um ateu foram chamados para encerrar a 1ª Jornada de Religião e Prática Médica, curso de três meses realizado no Hospital das Clínicas de São Paulo.

É importante lembrar que humanização ou qualidades como espiritualidade e religiosidade não se limitam a quem segue práticas como frequentar um templo e orar. "É estreitar a relação com o paciente, começando com pequenos detalhes, como um consultório mais simpático e acolhedor", afirma o dentista Dalton Luiz de Paula Ramos, professor de bioética da USP, membro da Pontifícia Academia Pro Vita, do Vaticano, e coordenador do Núcleo Fé e Cultura, da PUC.

"A espiritualidade faz parte da formação do caráter. A cultura influencia profundamente o desenvolvimento do caráter. Se faz parte da cultura, a religião faz parte do caráter", reflete Almeida.

Em um ponto, médicos céticos ou não concordam: o paciente deve ser tratado como um ser completo. "Não é um coração que vai ao consultório, é um ser humano", diz o dentista e médico do Vaticano.

O impacto da espiritualidade na saúde física

O impacto da espiritualidade na saúde física




Considerações finais do artigo  http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf


A influência da religiosidade/espiritualidade tem demonstrado potencial impacto sobre a saúde física,
definindo-se como possível fator de prevenção ao desenvolvimento de doenças, na população previamente
sadia, e eventual redução de óbito ou impacto de diversas doenças. As evidências têm-se direcionado de forma mais robusta e consistente para o cenário de prevenção; estudos independentes, em sua maioria de grande número de voluntários e representativos da população, determinaram que a prática regular de atividades religiosas tem reduzido o risco de óbito em cerca de 30% e, após ajustes para fatores de confusão, em até 25%.
Estudos mecanísticos tentando avaliar qual a relação entre redução de mortalidade e práticas religiosas têm
enfatizado o possível incentivo que essas práticas oferecem a hábitos de vida saudável, suporte social, menores taxas de estresse e depressão. Atitudes assistenciais voluntárias ou participação em congregações têm demonstrado associação com redução de mortalidade, provendo suporte e significado de vida, emotividade de aspecto positivo ou ausência de emoções consideradas de aspecto negativo; certamente existem dúvidas sobre se esses aspectos são mais relevantes em grupos específicos, tais como no de sexo feminino, com menor suporte socioeconômico e menores níveis de educação.
Também em contraste com tais evidências, não há clara correlação entre o grau de profundidade ou envolvimento em práticas religiosas e a proteção a eventos, exceto por análises de subgrupos em curva  post hoc.
O desenvolvimento de conceituações de virtudes religiosas, perdão, altruísmo, esperança, prece e voluntarismo, apesar de soar operacional ou métrico, pode definir a nova direção para conduzir estudos de avaliação de espiritualidade e religiosidade.
Na área específica de inter venções terapêuticas propriamente dita, a prece intercessória ocupou espaço
de investigação relevante a despeito de seus dúbios resultados e controvérsias; apesar do elevado número
de publicações em revistas indexadas sobre o assunto, ainda parece pouco claro qual o método mais adequado a esse tipo de avaliação e mesmo a validade de seus resultados ou continuidade de sua investigação; por certo, não há ainda prova sólida final para sua validade ou depreciação.
Há tendência à correlação entre a religiosidade/espiritualidade e a saúde física, mas por ainda não ser
adequadamente robusto em suas provas e correlações, este constitui, sem dúvida, em amplo e promissor
campo de investigação. Nesse cenário, a necessidade de maior investigação da relação entre saúde física e
espiritualidade, baseada principalmente no impacto de intervenções de base religiosa sobre a saúde, faz-se
ainda relevante para a comprovação desse paradigma.
A comprovação definitiva de efeitos dessas intervenções poderá, em futuro próximo, permitir sua transposição à prática clínica.
A utilização de adequado método científico e emprego dos princípios da medicina baseada em evidências,
para avaliação crítica da literatura e a condução de estudos, pode certamente prover o caminho que moverá
as hipóteses do promissor ao comprovado e certamente apenas essas confirmações poderão consolidar o paradigma suficiente para a modificação da percepção e conduta da sociedade atual ante a correlação entre
espiritualidade e saúde

Prática religiosa e redução de mortalidade

Prática religiosa e redução de mortalidade
                                                                                                   O impacto da espiritualidade na saúde física

                                                                               http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf
                                                                                                        HÉLIO PENNA GUIMARÃES, ÁLVARO AVEZUM



Cerca de 11 estudos independentes e longitudinais, avaliando a relação entre a prática de atividades religiosas e o impacto sobre a mortalidade, foram descritos até 2003, dos quais apenas dois envolveram pacientes não saudáveis. Sete desses estudos obtiveram resultados ajustados para dados de demografia, aspectos socioeconômicos, sexo, fatores de risco para outras doenças e outros potenciais fatores de confusão. Em seis estudos (66,6%), verificou-se a relação estabelecida, após ajuste, de aproximadamente, em média, 30% de redução de mortalidade bruta e até 25% após ajustes para fatores de risco conhecidos. A maioria desses estudos é de base populacional (Powell et al., 2003).
Strawbridge et al. (1997), em estudo de longo seguimento, avaliaram 6.928 pacientes, entre 16 e 94 anos,
durante 28 anos de seguimento; os praticantes regulares de atividades religiosas tiveram menores taxas de
mortalidade (razão de risco de 0,64; 95% IC, 0,53-0,77).
Esses resultados foram mais robustos em mulheres; em análise ajustada para antecedentes de doenças crônicas ou fatores de risco à saúde, não houve redução significativa do impacto. Durante o seguimento, os pacientes com práticas religiosas freqüentes interromperam o tabagismo, adotaram atividade física regular, aumentaram suporte social e mantiveram seu estado matrimonial.
Hummer et al. (1999) avaliaram dados do National Health Interview Survey (NHIS) em 21.204 casos e,
entre estes, 2.216 óbitos, associando a freqüência de prática religiosa a aspectos sociodemográficos, de
saúde e comportamento. Determinaram que pessoas que nunca tiveram ou que exerceram prática religiosa
irregular apresentavam risco de óbito 1,87 vez maior comparadas àquelas com prática de pelo menos uma
vez por semana. Tal associação se traduziu em diferença de cerca de até sete anos adicionais, na expectativa de vida entre os grupos.
Jaffe et al. (2005) avaliaram pacientes aderentes a práticas religiosas ou habitando áreas consideradas afi-
liadas a práticas religiosas em Israel. Foram analisados 141.683 indivíduos com idades de 45 a 89 anos, vivendo em 882 áreas distintas; 29.709 óbitos foram reportados em um seguimento médio de 9,5 anos. Homens e mulheres vivendo em áreas próximas ou afiliadas a práticas religiosas tiveram menores taxas de mortalidade (OR [homens] = 0,75; 95% IC, 0,67-0,84; OR [mulheres] = 0,86; 95% IC, 0,67-0,96).

Religiosidade/espiritualidade e doença cardiovascula

Religiosidade/espiritualidade e doença cardiovascular
                                                    http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf

                                                    HÉLIO PENNA GUIMARÃES, ÁLVARO AVEZUM



Hummer et al. (1999) foram os primeiros a demonstrar a correlação entre prática religiosa e redução da mortalidade por causa cardiovascular, mesmo após ajustes em análise multivariada para sexo, idade, educação, etnia e 
status social. No entanto, no que concerne à adoção de hábitos de vida saudável, após os ajustes para todas as 
co-variáveis e estilo de vida saudável, projeta-se p = 0,86 (ns), que, a despeito da perda de significância, indiretamente reforça o papel da religiosidade/espiritualidade em mudanças de hábito de vida.
Goldbourt et al. (1993) avaliaram o impacto da religião ortodoxa na doença arterial coronária em 10.059 pessoas em Israel por cerca de 23 de seguimento, demonstrando associação não ajustada de RR de 0,69 (p = 0,05), e após ajuste para fatores de confusão, como hábitos de vida, RR de 0,72 (p = 0,05). Colantonio et al. (1992), avaliando fatores preditores psicossociais para acidente vascular cerebral (AVC) em idosos não institucionalizados, determinaram, em 2.812 idosos de Connecticut,  status de depressão por meio da escala do Center for Epidemiologic Studies Depression Scale (CES-D). Esse estudo revelou altos valores de escores de CES-D como importante preditor de AVC (p < 0,05), e a prática freqüente de serviços religiosos foi associada à menor incidência de AVC (p < 0,001). Porém, ao se dispor esse achado em análise multivariada (p < 0,05), correlacionando sexo, idade, hipertensão, diabetes e tabagismo, nem os escores de depressão, nem a análise de religiosidade, mantiveram sua significância.
Em geral, os achados sugerem que aspectos da religiosidade com a prática semanal (RR = 0.93, ns) podem ser fatores protetores contra doenças cardiovasculares, por promover melhor controle de ansiedade/estresse e hábitos saudáveis de vida (Powell  et al., 2003). No entanto, certamente mais estudos longitudinais devem ser efetuados para a comprovação de sua relação com a morbidade cardiovascular.

O impacto da espiritualidade na saúde física. Impact of spirituality on physical health

Impact of spirituality on physical health
                                                                                        http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf

                                                                              HÉLIO PENNA GUIMARÃES e ÁLVARO AVEZUM


Palavras-chave: Espiritual, religião, saúde física.

Resumo
Contexto: As implicações da espiritualidade na saúde vêm sendo cientificamente avaliadas e documentadas em centenas de artigos, demonstrando sua relação com vários aspectos das saúdes física e mental, provavelmente positivos e possivelmente causais. Objetivo: Apresentar de forma concisa as evidências recentes do papel da espiritualidade e da religiosidade em diversos campos da prática clínica diária. Métodos: Para uma revisão descritiva foram selecionados artigos no banco de dados Medline, por meio dos unitermos: “religiosity”, “religion”, “spiritual” e “spirituality”.
Os artigos foram avaliados por análise de método e determinação de limitações de desenho. Resultados: Foram apresentados de forma descritiva e concisa relevantes achados referentes às associações entre a espiritualidade/religiosidade e atividade imunológica, saúde mental, neoplasias, doenças cardiovasculares e mortalidade, além de aspectos de intervenção com uso de prece intercessória. Conclusões: Há crescente acúmulo de evidências sobre a relação entre religiosidade/espiritualidade e saúde física, mas por essas evidências ainda não serem adequadamente robustas, este se constitui em promissor campo de investigação.
Guimarães, H.P.; Avezum, A. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 88-94, 2007



A espiritualidade poderia ser definida como uma propensão humana a buscar significado para a vida por
meio de conceitos que transcendem o tangível: um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que
pode ou não incluir uma participação religiosa formal (Saad et al., 2001; Volcan, 2003). A espiritualidade e sua relação com a saúde tem se tornado claro paradigma a ser estabelecido na prática médica diária. A doença permanece como entidade de impacto amplo sobre aspectos de abordagem desde a fisiopatologia básica até sua complexa relação social, psíquica e econômica; é fundamental reconhecer que esses diversos aspectos estão correlacionados em múltipla interação


A espiritualidade, a despeito de seu freqüente imbricar com a religião, historicamente tem sido ponto de satisfação e conforto para momentos diversos da vida, bem como motivo de discórdia, fanatismo e violentos confrontos.  Convém definir neste cenário que a religiosidade e a espiritualidade, apesar de relacionadas, não são claramente descritas como sinônimos. A religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo. A espiritualidade está afeita a questões sobre o significado e o propósito da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência e significados (Saad et al., 2001; Powell et al., 2003).
A comprovação da utilização de aspectos distintos da espiritualidade e da religiosidade como suporte, terapêutica e determinação de desfechos positivos em diversas doenças tem constituído emblemático desafio para a ciência médica. Em se considerando as limitações éticas e de método, demonstra-se o quão dificultoso se faz mensurar e quantificar o impacto de experiências religiosas e espirituais pelos métodos científicos tradicionais.Em recente levantamento de dados no site de pesquisa para publicações médicas indexadas de maior impacto clínico (sistema Medline) e utilizando as palavras-chave “religion and health”, foram encontrados cerca de 35.828 publicações entre 1982 e 2007; em se modificando para “spirituality”, foram encontrados 4.434 artigos no mesmo período. Nesse contexto, discernir os melhores desenhos de estudo e encontrar as melhores evidências que suportem a associação entre espiritualidade e saúde constitui novo, intrigante e profundo paradigma para a medicina moderna.  Este artigo tem por objetivo apresentar de forma
concisa as evidências recentes do papel da espiritualidade e da religiosidade em diversos campos da prática
clínica diária.

continua...  http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a12v34s1.pdf