C A H E R J

C A H E R J
Capelania Evangélica do Rio de Janeiro

sábado, 17 de setembro de 2011

Projeto Mãos e Coração

http://www.capelania.com/2008/abceh-acao-social/projeto-maos-e-coracao.html

www.capelania.com


Objetivo Geral

Oferecer abrigo, consolo, orientação, apoio emocional, espiritual, desenvolvimento de habilidades e atendimento social a: 1. pacientes hospitalizados; 2. seus cuidadores/familiares;
1. Alcance e Estratégia:
O Projeto Mãos e Coração é desenvolvido em três ambientes: hospitalar, domiciliar e em Casa de Acolhimento.
Os hospitais são os pontos de partida para o atendimento na CASA de Acolhimento, pois é onde são criados os vínculos e observadas as necessidades, a partir das quais são elaboradas as estratégias para o suprimento.
As oficinas de artesanato com as crianças hospitalizadas e suas mães são realizadas diariamente, tanto no leito a leito como em sala anexa às enfermarias, e alcançam os hospitais:Instituto da Criança do HCFMUSP (ICr), Instituto de Tratamento de Câncer Infantil (ITACI), Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) e Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

A Casa de Acolhimento, chamada de Casa de Aconchego, está atendendo desde junho de 2008:
1. As mães das crianças hospitalizadas nos hospitais Instituto da Criança do HC, I.I. Emílio Ribas e I. de Tratamento de Câncer Infantil, promovendo: oficinas de artesanato, de música, chás da tarde (Chá com Esperança), cursos de manicure, corte e costura, cabelereiro, computação e outros.  Oferecerá, também, a possibilidade de dormirem por algumas horas em camas (elas dormem por meses em cadeiras, nos hospitais) e de lavar e secar suas roupas (os hospitais não oferecem este serviço, o que causa grande transtorno principalmente às mães de vêm de outras regiões do Estado ou do país, e que não têm qualquer familiar nas proximidades, tornando-se as cuidadoras de tempo integral de seus filhos enfermos, e muitas vezes à morte.
2. Às crianças e adolescentes das famílias com AIDS:  cursos profissionalizantes  e oficinas de arte.
3. Às famílias com AIDS (triadas pelo Serviço Social do Hospital): doação mensal de cestas básicas; palestras sobre nutrição, higiene, aderência ao tratamento, música, espiritualidade e outros; atividades de artesanato; aconselhamento no luto.


2. Público-alvo:

1.  Crianças em longo período de hospitalização (Câncer e AIDS)
2. Crianças com doenças crônicas e degenerativas, em domicílio
3. Mães das crianças hospitalizadas
4. Famílias com AIDS atendidas no I.Infectologia Emílio Ribas
5. Filhos da AIDS (crianças e adolescentes)
6. Portadores de necessidades especiais (deficientes físicos)
7. Indivíduos excluídos do mercado de trabalho
 

DEPOIMENTOS


Eu, Maria Elena Ana Corrêa, agradeço as irmãs da Capelania Evangélica pelo trabalho de artesanato que fazem com as mães que passam a maior parte do dia dentro do hospital. Esse trabalho ajuda a relaxar a mente e o cansaço físico, não somente pelo artesanato, mas pelas palavras ditas, pela leitura da Palavra de Deus, nesses momentos muitas vezes tão difíceis. Tenho em minha casa um dos trabalhos dos trabalhos feitos, que é o do quadro (1º quadro do bebê) Não me esquecerei jamais! Deus abençoe a todos que dedicam as suas horas para estar junto com as mães. Vocês não sabem quanto é bom! Descobri que Deus se importa comigo”.

"Ajuda a manter minha família e não nos deixa passar fome. Aprendi que todos os dias temos que agradecer por tudo que temos”.
Kátia Cilene Sampaio

"Porque eu estou precisando deste alimento por falta de emprego. Aprendi a amar muito mais a Deus e escutar a sua Palavra com muito amor”.
Maria José Alves de Moura

"Ela é fundamental no complemento alimentar de meus quatro filhos. “Aprendi que temos que ser mais bondosos com o próximo”.
Marilena V.C. Silva

"Tem ajudado em muito minha família, pois estávamos com dificuldade. Aprendi a amar a Deus em primeiro lugar, pois Ele tem sido o alimento para as nossas almas”.
Solange Jovito da Silva

Projetos de Humanização agradam usuários da Santa Casa


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 O Grupo de Trabalho Humanizado criado no hospital é responsável por conduzir um processo de mudança da cultura de atendimento à saúde, promovendo o respeito à dignidade humana.
 

A Santa Casa de Misericórdia de Penápolis vem implantando ações que buscam tornar o atendimento aos seus usuários mais humanizado. Para isso atividades são pensadas em conjunto através do Grupo de Trabalho Humanizado que envolve colaboradores dos diversos setores do hospital.
Como parte das ações de humanização foi implantado desde o mês de junho o Projeto “Meu Primeiro Retrato” que presenteia todos os nascidos na maternidade da Instituição tanto no SUS quanto no particular, com uma fotografia 13x18 cm sem nenhum custo para os pacientes, tirada no momento em que mãe e bebê se encontram já no quarto. A lembrança impressa em papel fotográfico vem com a descrição da data e horário do nascimento, peso e estatura do recém-nascido, bem como o nome do Obstetra e do Pediatra, que será entregue à paciente antes da alta médica.
Modelo "Meu Primeiro Retrato" - filho de Elizandra de Oliveira
“Este projeto envolve emoções, aproximando mãe e filho, tornando esse momento inesquecível, uma experiência única e particular onde a Santa Casa quer participar desta ocasião tão especial” comenta um dos responsáveis pelo projeto o Publicitário Ricardo Muraroto.
“Já presenteamos mais de 100 mães desde o início da ação com essa lembrança repleta de grandes significados e emoções, onde com a foto das mães e algumas vezes com o pai presente, conseguimos proporcionar uma relação afetuosa muito positiva entre mãe, bebê e Hospital. Dessa forma nosso objetivo de aproximar e de tornar esse momento especial e único para a família e para a equipe foi alcançado. Outro objetivo do retrato é proporcionar ao bebê uma lembrança de sua história e de seu nascimento quando crescer, e da importância afetiva desse momento” salienta o Psicólogo também responsável pelo projeto Lucas Bondezan Álvares.
Diferentes emoções foram percebidas, algumas choraram, outras sorriram, mas todas demonstraram de alguma maneira o sentimento único desses primeiros contatos com o filho. “É um presente muito lindo que vou guardar para sempre, pois poucas têm a oportunidade de fotografar o filho depois do nascimento” relata emocionada Rita de Cássia da Silva paciente do hospital.
Além do retrato, os quartos da maternidade particular e convênios onde mãe e filho serão acolhidos também recebem decoração especial. O Projeto “Cegonhas da Alegria” é realizado por iniciativa de colaboradores de diversos setores que enfeitam o quarto antes mesmo de mãe e bebê chegarem, transformando o ambiente hospitalar com desenhos coloridos e divertidos, contando também com uma mensagem de boas-vindas ao recém-nascido.

"A intenção do projeto é transformar o ambiente hospitalar de forma mais familiar e acolhedor para a nova família”, relata a Farmacêutica Renata Cristina Vidal uma das idealizadoras do projeto.
A integração dos setores do hospital é destacada pela responsável de compras e suprimentos Telma Fernanda Mendonça: “essa ação estimula o trabalho em grupo e a criatividade dos envolvidos, visando a importância de atividades lúdicas e dinâmicas aos colaboradores, dentro da nova proposta do “cuidar de quem cuida”.
O projeto tende a beneficiar principalmente a paciente como explica Ângela Sussai, participante do projeto, “percebemos que as mães diminuem a ansiedade e o medo quando surpreendidas pela decoração do quarto”.
De acordo com o Administrador Hospitalar, Roberto Bastos, “este trabalho vem de encontro com o anseio de tornar o ambiente hospitalar mais humano e valorizar cada ser humano nascido saudável na entidade, também é um dos objetivos de um hospital que almeja ser “Amigo da Criança”.
Dessa forma a Santa Casa de Penápolis está caminhando para a humanização de seu atendimento, tanto para os pacientes quanto para seus colaboradores. Estas ações buscam uma nova cultura de acolhimento hospitalar com qualidade humanizada.
 

Espaço CuriosAção HC IV

INCA inaugura o Espaço CuriosAção
http://www.inca.gov.br/releases/press_release_view_arq.asp?ID=1232


Público-alvo são os pacientes da internação hospitalar, domiciliar e da área ambulatorial



No descerramento da placa de inauguração, a supervisora do INCAvoluntário, Emília Rebelo; a fisioterapeuta Waleska Cerqueira e a coordenadora do Espaço CuriosAção e diretora do HC IV, Cláudia NaylorO INCA lançou nesta quarta-feira, 30/8, em cerimônia realizada no Hospital do Câncer IV (HC IV), unidade de cuidados paliativos, o projeto Espaço CuriosAção, voltado para a melhoria da qualidade de vida de seus pacientes. Através da orientação de uma equipe multidisciplinar, os pacientes do HC IV realizarão atividades físicas, recreativas, informativas e psicológicas neste espaço, garantindo uma melhor socialização com a equipe que os acompanha, além de oferecer ao cuidador um dia de descanso.
Através de ações como o Espaço CuriosAção o INCA reforça sua posição como centro de referência nacional também em cuidados paliativos. Essa prática, que já é estabelecida nos grandes centros internacionais nessa especialidade, é pioneira no Brasil e está alinhada com os objetivos do Instituto de promover e oferecer cuidados paliativos oncológicos da mais alta qualidade, com habilidade técnica e humanitária no âmbito do SUS.
A cerimônia de lançamento contou com a participação do jornalista Cid Moreira, que recitou um texto bíblico sobre a importância do amor.O jornalista Cid Moreira recitou texto bíblicos aos presentes
O público-alvo do Espaço CuriosAção será formado pelos pacientes da Internação Hospitalar, da Internação Domiciliar, que possam se beneficiar de um período dentro da unidade, e da Área de Ambulatório, especialmente os que residem fora do estado do Rio de Janeiro e passam o dia na unidade aguardando o transporte de volta para casa. A triagem será feita pelo Serviço Social e a média de pacientes atendidos será de 15 pessoas.









http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/40c0d600420c1118a751a7ce655ae979/17_internas.pdf?MOD=AJPERES
O Espaço CuriosAção tem garantido a melhoria da qualidade de vida dos pacientes do HC IV e seus familiares, promovendo atividades físicas, recreativas, informativas e psicológicas, 
sob a orientação de uma equipe multidisciplinar. 
Além de estimular a socialização com a equipe que os acompanha, o projeto proporciona, ao 
‘cuidador’, um dia de descanso. A prática, que já é estabelecida nos grandes centros internacionais, é pioneira no Brasil e está alinhada com as diretrizes do Instituto de promover e oferecer cuidados paliativos oncológicos da mais alta qualidade, e ainda promover 
a humanização exemplar para as unidades de saúde em todo o País. São beneficiados 
os pacientes da Internação Hospitalar, da Internação Domiciliar e da Área de 
Ambulatório, especialmente os que residem fora do estado do Rio de Janeiro e 
passam o dia na unidade aguardando o transporte de volta para casa. A triagem é 
feita pelo Serviço Social, que encaminha uma média de 15 pacientes por dia. 





Centro de Atendimento à Família (CAF)


Centro de Atendimento à Família (CAF)


http://www.hcniteroi.com.br/hcn/PacienteServicos.do#10


Toda família passa por um grande estresse e fica muito fragilizada no período de hospitalização de um ente querido. Oferecer melhores condições de estadia, apoio psicológico e informações atualizadas são alguns dos objetivos do Centro de Atendimento à Família (CAF) Alexandre Adler, do HCN.
Devido ao perfil dos pacientes do HCN, portadores de doenças graves, os períodos de internação costumam ser superiores a cinco dias. Essa longa permanência no hospital exige um atendimento diferenciado aos familiares e acompanhantes.
A filosofia do CAF é investir na relação familiar como suporte terapêutico, contribuindo, assim, na recuperação do paciente. O projeto, pioneiro na cidade, conta com a coordenação de uma psicóloga e possui seis ambientes para os familiares: área de informática (computadores conectados à internet e entrada para notebook, telefone e fax), guarda-volumes, espaço de convivência e TV, sala ecumênica e local para reuniões - onde, por exemplo, a equipe médica mantém a família informada sobre a situação clínica do paciente.
Os familiares dos pacientes internados em uma das UTIs do HCN ou daqueles que estão em cirurgia podem aguardar notícias no CAF. Cabe às atendentes do setor fornecerem informações sobre o horário de visitas - que varia em cada UTI - e também informar as normas e os procedimentos da rotina hospitalar. Telefones (21) 2729-1004 e 2729-1122.

HOSPITAL DAS CLINICAS DE NITEROI
Localizado no centro do município de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, o Hospital de Clínicas de Niterói (HCN) foi inaugurado em 1991. De lá para cá, já passou por várias ampliações e modernização permanente de seu parque tecnológico. Com isso, atualmente, o HCN é o maior centro de excelência em saúde da Região Leste Fluminense.
Com cerca de 190 leitos, sendo 70 de Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) - adulto, criança e recém-nascidos -, suítes privativas e enfermarias, o hospital se destaca no tratamento dos portadores de patologias de alta complexidade (doenças graves).  Dessa forma, é referência no atendimento de politraumatizados - vítimas de acidentes e de violência urbana -, doenças cardíacas e neurológicas, em cirurgias e transplantes de órgãos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A espiritualidade no cuidar ao usuário do PSF, enfatizando a educação popular em saúde

A espiritualidade no cuidar ao usuário do PSF, enfatizando a educação popular em saúde 



Patricia Serpa da Souza Batista


Convive-se com uma crescente busca da população pelo desenvolvimento da
espiritualidade e da religiosidade. Este aspecto é atribuído por Soares e Lima (2005) à
deficiência do setor saúde, como também a necessidade de aliviar o sofrimento e de buscar
a cura. Segundo Valla (1998), há uma procura das classes populares por todas as religiões.
Esta procura é explicada principalmente pelos problemas causados pelo crescimento da
urbanização, pelo aumento das necessidades individuais e coletivas e pela dilapidação dos
direitos sociais e humanos.
A prática da religião pelas classes populares contribui para amenizar o sofrimento,
aliviar as angústias das pessoas, como também é associada ao processo saúde-doença e à
cura. A religião renova as forças para os embates cotidianos na luta pela sobrevivência.
Segundo Ferreira (2006), as religiões referem-se à crença na existência de uma
força ou de forças sobrenaturais, manifestação de tal crença por meio de doutrina e ritual
próprios, reverência às coisas sagradas, crença fervorosa, devoção, fé, culto, posição
filosófica, ética, metafísica. Para Dalai-Lama (apud BOFF, 2001a), a religião está
relacionada com a crença no direito à salvação, pregada por qualquer tradição de fé,
associada a ensinamentos ou dogmas religiosos, rituais, orações.  

Ao distinguir a religião da espiritualidade, Boff (2001a, p. 80) afirma que as
religiões constituem uma construção do ser humano que trabalha com o divino, com o
sagrado, mas não são o espiritual. A espiritualidade é uma dimensão de cada ser humano.
Esta dimensão espiritual que cada pessoa possui se revela pela capacidade de diálogo
consigo mesmo, com o próprio coração, traduzindo-se “pelo amor, pela sensibilidade, pela compaixão, pela escuta do outro, pela responsabilidade e pelo cuidado como atitude
fundamental”.
Espiritualidade implica todo esse conjunto de relações. No ser humano, é a
capacidade de transformar os fatos em uma experiência de libertação, em um projeto, em
uma prática em defesa da vida, de sua sacralidade, protestando contra todos os mecanismos
de morte, em todas as circunstâncias (BOFF, 1997).
 Vale ressaltar que o trabalho em saúde, realizado na atenção básica, muito tem
contribuído no sentido de promover um cuidado voltado para as necessidades do
indivíduo, da família e da comunidade, sendo  desenvolvido nas Unidades de Saúde da
Família, como também através de visitas  domiciliares, cujo contato com pessoas
portadoras  de doenças importantes, como também com famílias submetidas a situações de
risco e sofrimento, favorece  uma oportunidade de encontro entre educador e educando,
gerando apoio para enfrentamento de ameaça de vida e energia para encarar a
sobrevivência.
Nesse sentido, destaca-se a metodologia da educação popular em saúde, voltada
para o desenvolvimento de uma ação pedagógica direcionada ao ser humano inserido em
seu contexto de vida. Vasconcelos (1997), esclarece que a educação popular trabalha
pedagogicamente o homem e os grupos envolvidos no processo de participação popular
através de formas coletivas de aprendizado e investigação, promovendo análise crítica
sobre a realidade e estratégias de luta e enfrentamento.

No campo da saúde, a educação popular atua como estratégia de superação da
grande distância que existe entre o serviço de saúde e o saber científico de um lado e, de
outro, a dinâmica que envolve o adoecimento e cura. A educação popular em saúde realiza
ações que envolvem as dimensões do diálogo, do respeito e da valorização do saber
popular, sendo considerada um instrumento de  construção para saúde mais integral e
adequada à vida da população (VASCONCELOS, 2006).
Nesse contexto, nas Unidades de Saúde da Família, inseridos no ambiente físico e
cultural onde mora cada família, a convivência diária dos profissionais com os moradores
“tende a ir mostrando a ineficácia do modelo da biomedicina em modificar a dinâmica de
adoecimento e cura. Os profissionais vão sendo desafiados a experimentar práticas de
educação em saúde, passando a se assustar com a complexidade desse tipo de
intervenção” (VASCONCELOS, 2006, p. 58).  

Na educação popular em saúde, os profissionais trabalham com o universo de
significados, de crenças, de valores, apreendidos na comunidade, como também convivem
com a espiritualidade e a religiosidade que fazem parte da população. Dentro dessa
perspectiva, estes profissionais devem agir, relacionando-se efetivamente com a população,
refletindo sobre o cotidiano das pessoas, considerando o conhecimento popular, a escuta, o
diálogo, os sentimentos dos indivíduos que  estão sendo cuidados. Vale ressaltar que,
segundo Freire (2005b), quando o diálogo é fundamentado no amor, na humildade e na fé
nos homens, se faz uma relação horizontal em que a confiança mútua é conseqüência
óbvia, gerando esperança e transformação. É dentro dessa dimensão que os profissionais
envolvidos na educação popular procuram vivenciar a transformação social, acolhendo o
indivíduo, respeitando-o em sua autonomia e valorizando-o como cidadão.
Em seu livro Educação e Mudança, Freire  (2005a), ao se referir ao homem como
um ser de relações, afirma que, quando este compreende a realidade, pode levantar
hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções, podendo transformá-la.
No âmbito do PSF, os profissionais de saúde têm contato com pessoas portadoras
dos mais diversos problemas. A doença crônica, o envelhecimento, a solidão e a
possibilidade de finitude são exemplos de  situações vivenciadas pelo ser humano que o
levam a buscar um encontro consigo mesmo, com a sua espiritualidade, a fim de encontrar
forças para superar, por exemplo, a doença,  a solidão e o temor da morte, libertando-se,
numa atitude de transcendência. Para Boff (2000), a transcendência diz respeito à
capacidade de romper limites, de superar, projetar-se sempre num mais além.
Em estudo realizado com mulheres sobre a  vivência da espiritualidade, Sousa e
Batista (2006) evidenciaram, entre outros aspectos, que a espiritualidade é considerada um
apoio em suas vidas. É através do desenvolvimento da espiritualidade que estas mulheres
encontram apoio para o enfrentamento cotidiano da solidão e da tristeza, gerando
amadurecimento para uma vida interior, aceitação das perdas de entes queridos, da saída
dos filhos de casa, de seu envelhecimento, da doença e, até mesmo, de sua finitude.

Ao se reportar a espiritualidade na atenção primária à saúde, Smeke (2006, p. 298),
descreve que na prática cotidiana de cuidar, quer seja na consulta, no grupo ou no
domicílio, muitas vezes os profissionais se deparam com um emaranhado de queixas,
dores, carências que se confundem e extravasam os limites da doença. Nesse momento, o
sofrimento claramente extrapola a relação orgânica e “se quisermos realmente ajudar,
saíremos  de nosso papel profissional e devemos colocar em ação o nosso lado humano”.

A autora refere que o desenvolvimento de ações com sensibilidade, perspicácia, intuição,
interação, por vezes, têm o poder de aliviar muito mais do que grande parte das
medicações em uso. É quando o profissional entra em contato com a dimensão que
extrapola o espaço somatopsíquico do ser que está sendo cuidado e através da escuta
qualificada, do ato de acolher, gera compreensão, esperança, alívio da dor e sofrimento.
Outro aspecto que merece destaque, diz respeito a situações que envolvem o cuidar
de pessoas em estado terminal de vida. Nestas situações, torna-se muito importante a
prática educativa do profissional, auxiliando através do diálogo e da escuta, no processo de
aceitação da doença, minimizando medos, procurando dar apoio e conforto ao indivíduo e
a família através da visita domiciliar. Nesses momentos em que a cura do corpo não é mais
alcançável, Huf (2002) destaca a importância do resgate da espiritualidade como meio de
transformar os momentos de angústia, respeitando as crenças da pessoa, priorizando a
busca pela paz interior, procurando promover o bem estar, apesar da inevitabilidade do
sofrimento. A autora considera que vivenciar  a espiritualidade inclui exercitar a fé, a
esperança, o altruísmo, a solidariedade, aceitando a finitude como uma experiência que
propicia sensibilizar-se com o outro e encontrar um significado para sua própria existência.
Assim, o profissional de saúde precisa proporcionar um cuidado ao ser humano
numa perspectiva holística, valorizando o apoio espiritual, visando a que este possa
vivenciar momentos difíceis, com serenidade. Conforme Leloup e Hennezel (2003),
espiritualidade é dar um “passo a mais” na aceitação dos próprios limites, como também
diante do sofrimento, e ser solidário com quem necessita. É, simplesmente, na situação em
que se está dar esse “passo a mais” e ajudar o outro a fazer a mesma coisa diante de suas
dificuldades.
Entretanto, para que este profissional  consiga perceber a subjetividade, a
espiritualidade do outro, é preciso que tenha consciência de que também é um ser
biopsicossocial e espiritual, que precisa se autoconhecer, autodescobrir-se, e
principalmente aprender a desenvolver a sua  espiritualidade. Logo, este se sentirá mais
apto a ajudar o outro a conviver com os problemas que o envolvem de maneira satisfatória.
Como afirma Vasconcelos (2006), o desenvolvimento da  espiritualidade permite ao
profissional da saúde integrar em si as dimensões racional, sensitiva, afetiva e intuitiva as
quais permitirão uma maior proximidade com a pessoa sob seus cuidados e melhores
condições de lidar com as situações de crise que a envolvem.

Paiva e Fernandes (2006, p. 186) afirmam que a espiritualidade na prática do cuidar
desenvolvida na atenção básica é uma dimensão importante tanto para os profissionais
envolvidos no processo quanto para os usuários, pois “é nessa dimensão da espiritualidade
que se encontra o sentido da existência, e das vicissitudes dessa existência concretizadas
na doença, no cuidado, na consciência de finitude e da solidariedade.”
Nessa perspectiva, o cuidado  pode ser visualizado como  “uma inter-relação
dinâmica, permeada pela ética, que ocorre entre o ser que cuida e o ser que é cuidado, em
situação de saúde e doença” (BATISTA; COSTA, 2002, p. 49). O cuidar compreende não
só a técnica, mas também conhecimento, expressão de sensibilidade, comportamentos e
atitudes que fazem parte das características singulares de cada ser no momento do cuidado.
Um dos aspectos mais importantes do cuidar é que este conduz  a um processo de
transformação dos seres através do desenvolvimento de suas capacidades de saber e amar
(BATISTA; COSTA, 2002).
A espiritualidade, na prática do cuidar ao usuário do PSF, portanto, possibilita aos
profissionais atuarem de modo efetivo no campo da educação popular em saúde, uma vez
que proporciona uma maior aproximação entre  o cuidador e o ser cuidado, contribuindo
para um cuidar que atenda ao ser humano de forma integral, valorizando a sua
singularidade.

Conclusão
A realização deste estudo visou possibilitar uma melhor compreensão acerca da
espiritualidade na prática do cuidar ao usuário do Programa Saúde da Família, enfatizando
a educação popular em saúde.
Durante seu desenvolvimento, percebemos que a valorização da espiritualidade no
cuidar é uma prática que está em construção. Ainda estamos aprendendo a colocar a
espiritualidade em nosso cotidiano de trabalhadores de saúde engajados no cuidar,
principalmente porque ainda vivenciamos  uma prática muito voltada para a cura e
medicalização.
Por outro lado, é oportuno destacar que o trabalho em saúde envolve problemas
complexos, de múltiplas dimensões, e o conhecimento científico da biomedicina tem
respostas apenas para alguns aspectos. Desse modo, “a razão não é suficiente para lidar
com toda essa complexidade, exigindo também a intuição, a emoção, e a acuidade de
percepção sensível” (VASCONCELOS, 2006, p. 55).

Assim, é preciso perceber a integralidade da vida com toda sua subjetividade. Nesse
sentido, a prática do cuidar, desenvolvida através da educação popular em saúde na
atenção básica, notadamente nas Unidades de Saúde da Família, tem sido um grande
manancial de possibilidades, visto que nesses locais os profissionais das equipes do PSF
entram em contato com todas as peculiaridades dos indivíduos, família e comunidade sob
seus cuidados. Desse modo, deve procurar percebê-los tanto em suas necessidades
biológicas, como também em suas necessidades no campo psicológico, social e espiritual,
respeitando as suas crenças, seus valores, sua cultura, seu próprio modo de ser e de viver.  
Entendemos a espiritualidade, na prática da educação popular em saúde, como uma
força capaz de transformar o ser humano, ajudando-o a enfrentar as dificuldades da vida,
como também a doença, com otimismo e esperança.
Através da educação popular em saúde, dentro da estratégia da saúde da família, o
profissional vai criando vínculos com a comunidade e, aos poucos, vai encontrando meios
de ajudá-los.  Quando o indivíduo está doente, ele e sua família podem encontrar-se mais
fragilizados e, portanto, geralmente, mais receptivos  à atenção oferecida pelo profissional.
Conforme Teixeira (2006, p. 361), “é a espiritualidade que proporciona e aciona
um novo potencial de ser humano, sendo uma importante concretização do cuidado”. Para
o autor, esta espiritualidade “mantém acesa no sujeito a chama da abertura à alteridade,
da humildade essencial, do valor e dignidade do outro, do compromisso ético e da
compaixão”.
Desse modo, ao considerar a espiritualidade nas ações de educação popular, o
profissional contribuirá para  que o indivíduo valorize a vida e, realmente, vivencie com
mais serenidade, situações, tais como, a doença crônica que lhe tira as forças físicas a cada
dia, o alcoolismo do familiar, a morte de um filho.
De acordo com Boff (2001a, p. 73), em momentos de crise, quando, por exemplo,
morre um ente querido, ou se desfaz um matrimônio, ou quando se perde um filho para o
mundo da droga, é fundamental a espiritualidade. É poder ver  a temporalidade e  “saber
que não estamos vivos apenas porque  não morremos, mas porque a vida é uma
oportunidade para crescer, para aceitar nossas canseiras, nosso envelhecimento e nossa
mortalidade”. O autor acrescenta que só assim,  “maduraremos para uma vida interior,
espiritual, inalcançável pelo desgaste e pela morte”.

Por outro lado, o profissional de saúde que trabalha com a prática comunitária
precisa vivenciar o desenvolvimento de sua própria espiritualidade, pois, desta forma, adquirirá melhor sensibilidade e compreensão para lidar com os problemas que fazem parte
da vida do próximo. Este aspecto faz destacar a necessidade de que as academias priorizem
a temática espiritualidade em  seus currículos, permitindo ao  futuro profissional adquirir
uma maior amplitude de conhecimentos com vistas a melhor se preparar para a prática
cotidiana do cuidar.
Assim, estaremos construindo uma prática do cuidar pautada no respeito à
dignidade humana e na ética, como também contribuindo para o desenvolvimento de um
novo paradigma, pois como refere Boff (2001b, p. 19), “a espiritualidade pode permitir
um parto feliz de um novo paradigma civilizacional, que supomos mais sensível, mais
cordial e mais espiritual, capaz de garantir um futuro promissor para a terra e os filhos da
terra, os seres humanos”.
Esperamos que este estudo abra novos horizontes com relação à espiritualidade na
prática do cuidar ao usuário do Programa Saúde da Família, dentro da perspectiva da
educação popular em saúde, proporcionando reflexões sobre a temática, como também
suscitando o desenvolvimento de novos trabalhos nesta área do conhecimento.

A Espiritualidade na prática do cuidar do usuário do Programa Saúde da Família, com ênfase na educação popular em saúd

A Espiritualidade na prática do cuidar do usuário do Programa Saúde da Família, com ênfase na educação popular em saúde
                                                        Revista APS, v.10, n.1, p. 74-80, jan./jun. 2007     
                                                  http://www.ufjf.br/nates/files/2009/12/Epratica.pdf
                                                                  por: Patricia Serpa da Souza Batista


RESUMO
Este artigo visa abordar a relevância da espiritualidade na prática do cuidar do usuário do Programa Saúde da Família-PSF, enfatizando a educação popular em saúde. O trabalho desenvolvido no PSF é principalmente voltado para ações educativas que promovam saúde e previnam doenças. Desse modo, destaca-se a valorização do indivíduo em sua essência, como um ser que possui necessidades no âmbito biológico, psicológico, social e espiritual que precisam ser atendidas em sua plenitude. A espiritualidade, no trabalho em saúde realizado com enfoque na metodologia da educação popular em saúde, é uma força capaz de auxiliar o indivíduo, a família e a comunidade a superar as  dificuldades da vida, como também as doenças que vivenciam, com otimismo e esperança, proporcionando uma melhor enfrentamento da realidade.
Conclui-se, entre outros aspectos, que a valorização da espiritualidade no cuidar é uma prática que está em construção. Sugere-se a necessidade de que as academias priorizem a temática espiritualidade, com vistas a melhor se prepararem para a prática cotidiana do cuidar.
Palavras-Chave: Espiritualidade; Programa Saúde da Família; Educação em Saúde; Educação da População.


Introdução
O cuidar faz parte da existência humana desde o nascimento à sua finitude, constituindo uma necessidade primordial do homem no processo de ser e de viver. Boff (1999) compreende o cuidar como modo de  ser essencial à pessoa  humana, que precisa

estar presente em tudo, representando não só um instante de atenção, mas uma atitude de
ocupação, de envolvimento com o outro. O cuidar, portanto, é relacional, requerendo do
profissional um agir ético, atencioso para com ser humano que está necessitando de
cuidados, seja na promoção, prevenção ou recuperação da saúde, desenvolvida
principalmente na atenção básica, seja nos cuidados de média e alta complexidade cuja
tecnologia se encontra em franca expansão.
Vivemos um momento histórico de fascínio pela tecnologia e suas descobertas que,
embora estas tenham trazido uma série de  benefícios, têm como efeito adverso o
incremento à desumanização, podendo transformar o ser humano em um simples objeto de
intervenção técnica (BARCHIFONTAINE, 2004). Isso se deve também à presença ainda
marcante de um modelo de saúde voltado para a racionalidade científica, influenciada pelo
paradigma cartesiano de Descartes, que remonta o século XVII. Este paradigma, a que
Capra (2001) denomina de modelo biomédico, se caracteriza por uma visão mecanicista e
fragmentada do corpo humano, em que a doença é vista como um mau funcionamento das
partes dessa máquina que precisa ser consertada pelo médico.
No final do século XVIII, a medicina torna-se anátomo-clínica e a doença passa a
ser considerada categoria central do saber e da prática médica. Dentro da visão
mecanicista, esta é uma medicina do corpo, das lesões e das doenças. Nessa perspectiva, as
doenças se expressam por sinais e sintomas, que são manifestações de lesões e que devem
ser corrigidas por uma terapêutica concreta medicamentosa ou cirúrgica (CAMARGO Jr.,
2003) Camargo Jr. (2003) destaca que a medicina começa a ser considerada como
integrante do campo de poder da sociedade, intervindo em larga escala, o que veio a ser
denominado processo de medicalização social.  Nesse contexto, é pertinente considerar a
luta da corporação médica para conquistar seu campo de saber e prática, como também a
relação com o chamado complexo médico-industrial como eixo de acúmulo de capital.
O autor também enfatiza a racionalidade médica, a da medicina ocidental
contemporânea, também chamada biomedicina,  por ter uma estreita vinculação com as
disciplinas oriundas das ciências biológicas. Desse modo, a biomedicina enfatiza o
biológico em detrimento dos aspectos subjetivos que podem envolver o processo de
adoecimento. Faz parte dessa racionalidade aspectos, tais como processo de fragmentação
do corpo humano com um crescente número de especialidades, ganhos tecnológicos mais avançados, ser voltada para a cura através  da utilização acentuada de medicamentos e
cirurgias, entre outros.
Entretanto, existem situações em que este modelo biomédico influenciado pelo
paradigma cartesiano, com toda sua racionalidade, não se aplica facilmente. Conforme
Capra (2001, p. 91),  “podemos trazer à luz, as limitações do paradigma cartesiano nas
ciências naturais e sociais; essa exposição visa a ajudar  cientistas e não cientistas a
mudarem sua filosofia, a fim de participarem da atual transformação cultural”. Vale
ressaltar que, no campo das pesquisas científicas, por exemplo, se observa haver temáticas
estudadas em áreas do conhecimento como a  filosofia, a psicologia, a sociologia que
incluem a subjetividade humana em toda sua complexidade, e não podem ser resumidas à
operacionalização de variáveis.
 Vale ressaltar que o modelo da biomedicina começou a perder força nos países
desenvolvidos principalmente a partir da segunda metade do século XX, devido ao caráter
fragmentado e ineficiente da assistência à saúde direcionada principalmente ao tratamento
das doenças crônico-degenerativas, como também em decorrência do alto custo envolvido
no processo, gerando grande insatisfação na população. Tal situação contribuiu para a
busca pelas terapias alternativas, a exemplo da homeopatia, acupuntura, florais. Contribuiu
também para o desenvolvimento de estudos envolvendo aspectos sociais e subjetivos que
influenciam no processo de adoecimento e cura, bem como estratégias de saúde integradas
a uma visão religiosa (VASCONCELOS, 2006).  Verifica-se, no campo da saúde coletiva, a emergência de novas abordagens para se
pensar o adoecimento, tais como: a integralidade das ações de saúde, a humanização do
atendimento, a produção do cuidado com vistas à transformação do modelo
tecnoassistencial. Observa-se também uma crescente aceitação da população pela medicina
alternativa, na qual os aspectos psíquicos e físicos são indissociáveis na busca do
restabelecimento do equilíbrio (GUEDES et al., 2006).
Vivenciamos no âmbito da saúde pública brasileira, uma prioridade do governo em
ampliar as ações de saúde por meio da expansão e qualificação da atenção básica através
do desenvolvimento do Programa Saúde da Família – PSF. Este programa é entendido
como uma estratégia de superação da proposição de caráter  centrado na doença,
operacionalizado mediante a implantação de equipes multiprofissionais em unidades
básicas. (BRASIL, 2004)

O PSF foi criado em 1994, como estratégia do Ministério da Saúde que prioriza as
ações de promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e da família, do
recém-nascido ao idoso, sadios ou doentes, de forma integral e contínua, cujo objetivo é a
reorganização da prática assistencial em substituição ao modelo tradicional de assistência,
orientado para a cura de doenças e realizado principalmente em hospitais (BRASIL, 2000).
No referido programa, o atendimento é realizado pelos profissionais das Equipes de
Saúde da Família (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, agentes comunitários
de saúde, dentistas e auxiliares de consultório dentário)  na unidade de saúde ou nos
domicílios. Essa equipe e a população acompanhada criam vínculos de coresponsabilidade, o que facilita a identificação, o atendimento, o acompanhamento dos
agravos à saúde, como também a realização das atividades educativas voltadas à prevenção
de doenças e promoção da saúde. (BRASIL, 2004)
Com relação às ações educativas, ressalta-se a metodologia da educação popular
em saúde que, segundo Moreira e Barreto (2004), se caracteriza como uma construção
coletiva e processual, orientada a partir da observação da realidade e mediatizada por uma
relação dialógica entre o saber científico e o popular, levando à formulação de práticas que
visam à melhoria da qualidade de vida.

continua...

Humanização nos cuidados de pacientes com doenças crônico-degenerativa

Humanização nos cuidados de pacientes com doenças crônico-degenerativa
                                                   http://www.saocamilo-sp.br/pdf/mundo_saude/67/225a230.pdf

                                                            Danielle Justini Fowler e Ana Cristina de Sá


Resumo: As doenças crônico-degenerativas são doenças progressivas e que interferem na qualidade de vida de seus portadores. Tendo em vista esse aspecto e o fato de ser a humanização das relações e do cuidado ao ser humano uma preocupação de profissionais de saúde e de cuidadores, este estudo tem como objetivo esclarecer dúvidas para que se possa repensar as relações e os valores éticos no
processo do cuidar. Além da eficiência técnico-científica, os caminhos apontam também para a prática da sensibilidade e da solidariedade humana.
PalavRaS-cHave: Doença crônica. Humanização da assistência. Bioética.


Humanizar em saúde: um caminhar histórico.



Os gregos foram os primeiros a separar a categoria material da espiritual e desenvolver a abordagem científica tal como é utilizada hoje. Era comum no mundo antigo o uso da música e de palavras
de encantamento no processo de cura. Todos reconheciam o poder curador das palavras e as usavam
para expelir os espíritos malévolos das doenças.
A harmonia interna podia ser obtida pela música, dieta, compreensão dos sonhos e meditação,
que levavam à estabilidade e união do corpo e alma. Platão afirma que a cura deve dirigir-se à alma:
  (...) assim como não é possível tentar a cura dos olhos sem a da cabeça, nem a da cabeça sem a
do corpo, do mesmo modo não é possível tratar do corpo sem cuidar da alma (...) É da alma
que saem todos os males e todos os bens do corpo e do homem em geral, influindo ela sobre o
corpo como a cabeça sobre os olhos (...)
A entrada no século XX apresenta uma visão fragmentada de homem, estudando-se a doença
com ênfase na compartimentalização, objetividade, concretude e padronização. A partir de então,
começa a emergir o reconhecimento de que as características peculiares de cada paciente, como sua
história, suas relações sociais, seu estilo de vida, processos mentais, personalidade e processos biológicos precisam ser incluídos para se atingir uma conceitualização de saúde e doença.
Assim se desenvolve a Medicina Psicossomática, que oferece subsídios para a compreensão da relação mente-corpo. A história da psicossomática é dividida em três fases: a primeira, denominada fase inicial ou psicanalítica, teve seu interesse voltado para o estudo da origem inconsciente das doenças. A segunda, também chamada de fase intermediária, valorizou a pesquisa em homens e animais, deixando grande legado ao estudo do estresse. A terceira fase, denominada de atual ou
multidisciplinar, valoriza o social e a interação entre os profissionais das várias áreas da saúde.
As rápidas e profundas modificações econômicas, políticas e sociais ocorridas de forma heterogênea nas diversas regiões do Brasil, a partir da década de 60, resultaram em mudanças marcantes
na sociedade, caracterizadas por fatores como a diminuição acentuada do índice de fertilidade, redução da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias e aumento expressivo da esperança de vida ao
nascer, e modificou-se, também, o estilo de vida da população, com apreensão ou reforço de hábitos,
muitas vezes indesejáveis à saúde.
O declínio das taxas de fecundidade no Brasil, nas últimas décadas, trouxe grandes implicações sobre a
tendência demográfica de sua estrutura etária, apontando para um crescimento importante do número de idosos no país e configurando outro perfil populacional, com consequente necessidade de novo
delineamento de prioridades.
Paralela a essa transição demográfica, vivenciamos a transição epidemiológica que consiste na alteração do perfil de morbimortalidade do país, decorrente da substituição das causas de morte, anteriormente consequentes de doenças infecciosas e parasitárias, que atingem mais a população infantil, pelas doenças crônico-degenerativas, frequentes na população adulta.
Nesse novo quadro demográfico e epidemiológico, indivíduos atingem um período da vida
quando problemas decorrentes de doenças crônico-degenerativas tornam-se manifestos, somando-se
às diferentes condições de vida das pessoas idosas no Brasil, já que são diretamente afetadas por desigualdades de renda, educação, habitação, transporte, acesso aos serviços de saúde, dentre outros. Portanto, torna-se evidente nossa preocupação com a qualidade de vida dessas pessoas que alcançarão à velhice.
É característica das patologias crônicas que os cuidados nunca cessem. Após a alta hospitalar, em
casos mais graves, estes pacientes são levados para uma outra instituição, como um asilo, por exemplo.
Ou então, o que é mais comum, considerando a cultura brasileira e as condições socioeconômicas de
nossa população, o paciente é encaminhado para casa.

continua:  http://www.saocamilo-sp.br/pdf/mundo_saude/67/225a230.pdf